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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

23º Domingo após Pentecostes, 19.10.2008

Predigt zu Isaías 45:1-7, verfasst von Renatus Porath

Luz e trevas, paz e desgraça;

Eu faço tudo isso, diz o Deus de Israel.

Irmãs e irmãos!

Quanta pretensão da parte de Deus! - deve ter pensado o pequeno público ouvinte, mas muito cético, chamado Israel. Esse Israel formava uma comunidade vivendo no estrangeiro, um grupo de exilados assentados em colônias agrícolas ao longo dos canais do rio Eufrates, nos arredores da Babilônia. Após o desmanche do estado, a perda de terra, templo e culto, estava aí já a geração dos filhos e netos dos que foram trazidos à força de Jerusalém para a capital do império babilônico, ganhando seu sustento como agricultores, pagando tributos para o império que acabara com sua história na Palestina. Alguns até conseguiram espaço na administração, no comércio. No geral, porém, a situação era nada confortável. O que caracterizava a condição de descendentes dos exilados?

Um sentimento dominava a todos, o de estar fora de casa, de estar vivendo no estrangeiro, longe da terra e esquecido por seu Deus. Aliás, tinham dúvidas quanto à competência de seu Deus para lidar com sua situação. Suas queixas, se muito, tornavam-se lamentos pela dura sina que os atingira, quando se reuniam em culto. Perguntavam-se: será que nossos dias vão acabar assim, longe de casa, sem esperança de retorno, como vida sem sentido; e esse Israel já era a 2ª ou 3ª geração que aí vivia. Títulos, nada elogiosos, "vermezinho de Jacó / povinho de Israel" (41,14), retratam uma baixíssima auto-estima destes sobreviventes do antigo reino de Judá com sua capital Jerusalém.

"Exílio" é o tema do fotografo brasileiro Sebastião Salgado; suas exposições de fotos percorrendo as capitais, suas publicações com imagens documentam o sofrimento de muitos de nossos conterrâneos, vivendo fora de casa, afastados de suas origens. Quantos não vivem deslocados e são compulsoriamente distanciados de sua terra natal, de sua família, de sua gente, por razões que vão desde a busca por sustento de suas famílias até a fuga por causa de perseguições políticas e ameaças de morte. Quando trabalhadores do Nordeste são contratados para frentes de trabalho, distantes de seu lugar de origem, esses chegam ao novo paradeiro e percebem que outra cilada lhes foi armada. Seu trabalho nem de assalariado é; foram feitos escravos em pleno século 21. Seus salários não cobrem nem as despesas do armazém das frentes de trabalho de desmatamento ou plantação de cana. Quando decidem retornar para casa, encontram empecilhos de toda ordem e percebem que foram enganados, e que não tem mais volta. As organizações, que denunciam a situação dessa população vivendo em condições sub-humanas, contam nada mais nada menos do que 60.000 pessoas escravizadas nessas frentes de trabalhos em nosso país. A situação desses migrantes forçados a deixar sua terra de origem por causa de condições econômicas é de cortar o coração e desperta indignação em nós.

Gente que se sente fora de casa - como milhões de nossos semelhantes ao redor do mundo - é o que motivou o surgimento de Isaías 45 e dos demais poemas e textos reunidos nos cap. 40-55 do livro desse profeta. Vale a pena ler esses 15 capítulos a partir dessa perspectiva, colocando-se na pele de pessoas que se sentem longe e fora de casa.

Para aquele grupo na Babilônia, finalmente aparece uma luz no fim do túnel. Uma voz se levanta na comunidade. Não sabemos o nome deste porta-voz; talvez se trate de um profeta-cantor, de alguém responsável pelos cânticos da comunidade religiosa, improvisada lá nas colônias agrícolas ou nos quarteirões dos exilados na cidade. Há mudanças à vista, quase palpáveis. O profeta-cantor mudou o tom dos seus cantos; talvez cantasse lamentos do tipo "Deus esqueceu-se de nós aqui na longínqua Babilônia", "Ele está pouco preocupado com nossa dura sina"(40,27). Seus cantos agora têm um novo tom: alegria, certeza e esperança encheram seu coração. Sente-se literalmente contagiado pela novidade que ele tem para contar. Para ele não há mais dúvidas: Deus é criador, saiu do seu lugar oculto e resolveu retomar suas funções. O Deus desse resto de Israel, quase desintegrado, continua ativo. Ele não ficou debaixo dos escombros de seu templo lá em Jerusalém no 6° século a.C.; ele está muito vivo.

O texto de Isaías coloca na boca de Deus: "eu crio, eu formo, eu vou modelando a vida feito argila; eu faço paz, deixo aparecer a luz". No passado, ele trouxe desgraça e infelicidade para seu povo pelas mãos do conquistador imperialista babilônio, responsável pelo fim de Judá e sua capital Jerusalém. Deus autorizara o poderoso rei babilônio Nabcodonosor a bater no seu povo, permitindo que provocasse aquele desmanche que já durava quase 7 décadas.

2. Onde estão os sinais de que algo de novo se aproximava?

Os ouvintes céticos daquele profeta-cantor olhavam para fora das janelas de suas casas modestas e viam a grande estrutura da capital Babilônia intacta; os palácios magníficos como sempre, os templos imponentes em plena atividade, o sistema arrecadador de tributos funcionando e explorando como sempre. A Babilônia era uma cidade efervescente, talvez a mais importante no Antigo Oriente no 6° século a.C.

Como alguém pode dar um recado tão ousado assim? O Deus do pequeno Israel retomou suas funções de criador, salvador e tutor de seu povo. Se isso é verdade, onde está a nossa liberdade?  perguntava-se um povo com baixíssima auto-estima, que mais se sentia povo de segunda categoria do que povo com história e passado honroso.

A voz profética não se deixa intimidar com esses questionamentos, vindos das próprias fileiras. Ele replica: "Não é nosso destino uma vida sem sentido, sem Deus, sem poder respirar ares de liberdade". O porta-voz não se cansa de repetir, em nome do Deus do pequeno Israel: "Não temas! Eu estou contigo, estou promovendo teu resgate, sou teu salvador, sou o salva-vidas deste meu povo".  Deus voltou à ativa, não só como Deus particular de seu povo, ele voltou a jogar no grande palco da história.

Da boca da população da capital, no entanto, não se ouvia outra coisa senão uma notícia, que mais parecia furo de reportagem: "Ciro, o novo governante persa, está em franca ascensão!" Novas notícias vinham de todos os lados. Nada e ninguém podem deter o persa Ciro. Com ele vem um novo jeito de governar seu império e de lidar com os povos e as nações subjugadas. Ninguém precisa tornar-se persa, assumir a cultura e a religião do conquistador. Está nascendo um império com nova cara. Os descendentes dos deslocados de guerra, aquele restolho dos deportados de Israel - todos podem voltar para casa (45,13). Como se não bastasse, ele quer reerguer o templo de cada povo subjugado pelos seus antecessores; também o de Jerusalém dos judaítas, ainda em ruínas, ele vai reconstruir (44,28).

Para o profeta-cantor só há uma certeza: É sinal dos céus; só pode ser Deus criando paz, bem-estar (shalom), moldando a vida a ponto de sair salvação, luz e felicidade para seu povo. Na comunidade do "Israelzinho", insignificante diante da grande política, o tema também foi discutido. O profeta-cantor não tem dúvida: O Deus do "Israelzinho" entregou ao conquistador persa esse enorme poder; graças ao Deus do pequeno Israel, Ciro está se tornando quase dono do mundo conhecido de então, do Oriente ao Ocidente. Ele é instrumento na mão do Deus de Israel para salvar, para socorrer seu povo. Deus se vale daquela grande política para fazer chegar seu socorro aos seus exilados, para sua gente vivendo fora de casa.  É o uso do poder político para o bem-estar dos mais ameaçados.

É possível que nos sentamos um tanto desconfortáveis com esse elogio rasgado ao vitorioso e novo líder político: "Ciro, o ungido de Deus". Deus abençoando e confirmando sua campanha militar bem sucedida? Assim é fácil ser Deus. As manobras de um império, ávido por poder, sedento por subjugar outros povos, são estes os sinais da presença atuante de Deus? Um novo jeito de construir o império, desta vez pelas mãos de Ciro, é festejado como instrumento de salvação para seu povo. Deus está por detrás de Ciro, aliás Ele vai adiante dele, abrindo caminho. Deus lhe confere habilidades de estrategista (v. 5) "para desarmar completamente" a outros povos (v. 1).

Temos tanta certeza assim de que é o bem vencendo o mal, e ainda através de um líder que nem sequer conhece a Deus (v. 4)?  O nosso Deus abençoando as campanhas bélicas do vitorioso conquistador persa, chamado Ciro? Para o profeta-cantor também as grandes potências são passageiras e transitórias, aparecem e somem como a "erva" do campo. Acaso, não estamos assistindo, nesses últimos dias, ao desmoronamento de uma superestrutura econômica? Não é algo desse caráter passageiro de impérios se manifestando diante de nossos olhos?

Ciro é poder político, chamado, escolhido e colocado a serviço de Deus e de seu povo. Toda esta orquestração acontece por causa do pequeno Israel. E com efeito, um poder político, um governo que perde essa dimensão de serviço focalizado no mais fraco perde sua legitimidade. Se esse fosse nosso critério para fazer política, ao entregarmos poder a alguém na sociedade, nessas eleições, teríamos uma sociedade mais inclusiva, menos desigual e mais justa. Cabe à sociedade vigiar para que o poder continue a serviço dos que foram excluídos. Para Lutero, a petição "o pão nosso de cada dia nos dá hoje" inclui alimento, roupa e bom governo.

Para o profeta-cantor, o poder é transitório e especialmente aquele que não se coloca a serviço o é. O que permanece é Deus e sua palavra criadora (40,8; 52,12). Através dela Deus criou céus e terra, o mundo e tudo o que há nele, mas também criou seu povo lá no passado; com essa palavra criou trevas e desgraça no passado de seu povo. Deus quer virar essa página e escrever um novo capítulo na história dessa gente que vive longe de casa. Agora, no presente, com essa mesma palavra ele quer criar "luz" em meio às trevas e trazer finalmente a "paz" para seu povo atormentado. A sua paz, o seu agir salvador se materializa onde ele estabelece seu reinado (43,15).

3.  A operação "retorno" pode iniciar!

Na comunidade dos descendentes de deportados não ressoa outra coisa: Deus vai nos levar para casa! Podem fazer as malas. Deus vai nos pôr na estrada; a operação "retorno" pode iniciar. Ouvir essa palavra que devolve liberdade e provoca uma profunda mudança diante da vida. Num primeiro momento, pouco alterou no cotidiano daquelas pessoas, mas uma certeza começa ganhar espaço: a mão salvadora de Deus os alcançou! Ele não está à espera lá longe na terra ou num céu distante, deixando que seu povo precisasse enfrentar os perigos da estrada, passando por regiões inóspitas, contando apenas com seus recursos e sua criatividade para construir caminhos. Ele não está à espera na porta da casa distante para receber e premiar os sobreviventes mais audazes. Ele se manifesta com sua promessa em meio a um sentimento de abandono e ausência e se torna parceiro na caminhada.

O porta-voz de Deus lá do exílio quer arrancar sua comunidade da inércia, trazendo à memória algo que havia esquecido e perdido: Não precisamos fazer a vida, criando um sentido para nossa existência. Ouvimos da boca de Deus: "Eu faço tudo isso"! Eu ponho vocês na estrada! Caminhamos sim, e de olhos muito abertos para o que acontece ao nosso redor, mas sabendo da companhia desse Deus que afirma seu compromisso de amor e solidariedade. São sinais de aconchego "lá de casa" embora ainda a caminho.  Apenas ele poderá criar em nós essa certeza, essa consciência de criaturas libertas na caminhada com seu Deus.

- Ele está do lado de nós caminheiros de volta para casa; Deus participa de nossa provisoriedade, de nossa fragilidade e conflitividade da existência pessoal e coletiva. Ele não espera num destino longínquo para onde nos dirigimos; não, ele nos toma pela mão e permite que a caminho nos deliciemos com suas dádivas, devolvendo amor recebido, socializando a alegria de ser criatura desse Deus que compartilha de nossas andanças.

                                                                                                                                             Amém

 



P. Renatus Porath
São Paulo, Brasilien
E-Mail: renatus.porath@gmail.com

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