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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

Penúltimo Domingo do Ano Eclesiástico, 16.11.2008

Predigt zu Juízes 4:1-7, verfasst von Gottfried Brakemeier

 

Prezada comunidade!

O texto para a prédica de hoje fala de guerra e opressão. Durante vinte anos Israel sofre os maus tratos de Jabim, rei de uma cidade próxima que, com seus novecentos carros de ferro, explora o povo e o mantém em dependência. Até aqui nada de novo. A história da humanidade está cheia de atrocidades como estas, até os dias de hoje. São raros os momentos em que houve paz no planeta. Parece que o ser humano não consegue viver em harmonia com seus vizinhos. Exerce tirania, rouba, mata. Sente-se autorizado a agredir seu próximo, seja na forma da guerra de um país contra o outro, seja na da guerrilha de bandos armados em busca de poder e riqueza. Quanta fome existe neste mundo afora. Mas as armas nunca faltam. Sua produção e seu comércio pertencem aos negócios mais lucrativos do mercado. A violência pertence ao dia-a-dia. E ela é sempre igual seja no Afeganistão, na África, na Colômbia ou nas nossas cidades. Exerce terror e espalha o medo. Eu volto a dizer: Até aqui o texto traz nada de novo. Ele fala do que parece ser corriqueiro, "normal" neste mundo.

Novo é outra coisa. Confesso que fiquei surpreso quando li: "Depois que Eúde morreu, o povo de Israel pecou novamente contra Deus, o Senhor. Por isso o Senhor deixou que eles fossem conquistados por Jabim, rei de Canaã." Então, o sofrimento de Israel não veio por acaso. Tem motivo. Está sendo entendido como um castigo para o pecado. Tal interpretação de modo algum é natural. Normalmente as pessoas não têm a coragem para confessar sua culpa. Costumam culpar os outros e se dizem vítimas de crimes alheios. Ou então responsabilizam a má sorte pela desgraça. Foi uma constelação de fatores adversos que causou a minha ruína. Sou um azarento, sim, mas não um culpado. É assim que as pessoas reagem e argumentam. Por isso esse texto chamou a minha atenção. Israel se declara culpado da opressão que sofre, porque desobedeceu a Deus. Mereceu a sua sorte cruel. Pergunto: Será esta uma explicação aceitável? 

Em primeiro lugar eu gostaria de me congratular com o espírito de penitência do antigo Israel. Ele é exemplar. São poucos os povos que em sua história mostraram tamanha honestidade com relação a seus fracassos. Há poucos meses voltou à tona a pergunta pela penalização dos torturadores na época da ditadura em nosso país. Mas de imediato ficou claro não haver disposição para acertar os crimes do passado. O assunto foi novamente engavetado. Menciono um outro exemplo: Há quase unanimidade em todo o mundo que a presidência de George W. Bush tem sido uma calamidade não só para os Estados Unidos como também para a humanidade em geral. Quanta desgraça se produziu por este governo. Terá sido uma fatalidade? Quem elegeu este presidente? Quem lhe deu força e apoio?  Será que alguém vai admitir culpa?

Eu poderia continuar falando da crise financeira, da crise ambiental, da crise da corrupção em nosso país, além das tantas outras crises no mundo de hoje, nos países, nos municípios, nas famílias. Quem é responsável por elas? O discurso é sempre o mesmo! Não, nós fizemos tudo certo. São outros que atrapalharam. Ou foram circunstâncias desfavoráveis que respondem pelos problemas. Nós nunca erramos. Quando um matrimônio quebra e um casal se separa, a culpa evidentemente está no cônjuge, no outro ou na outra. E assim poderíamos prosseguir. O ser humano costuma desculpar-se. Ora, no antigo Israel isto era diferente. Antes de acusar Jabim, o rei de Canaã com seus temíveis novecentos carros de ferro, Israel acusa a si mesmo. Nós pecamos contra Deus. É raro ouvir coisa assim. E eu insisto: Um pouco de penitência não faz mal a ninguém.

 

Lógico, as responsabilidades variam. Uns têm mais culpa do que outros. Mas a ninguém se permite lavar as mãos em inocência. Os tais dos "justos" são pessoas incômodas, insuportáveis. Sempre têm razão e condenam os outros. Permito-me lembrar que Jesus não queria envolver-se com esse tipo de gente. Sabia-se enviado aos pecadores, e somente a eles. Pessoas incapazes de confessar pecados no fundo são doentes. Enganam-se com respeito à sua própria condição. Escondem suas falhas e não admitem seus lados fracos. Eu dou os parabéns ao antigo Israel pela coragem de assumir culpa por sua desgraça. É um exemplo inspirador, muito salutar também em nossos dias. Quem quiser mudar a situação, deve primeiro assumir seus próprios erros.  

Por outro lado preciso dar um alerta. Os erros de Israel não legitimam os crimes de Jabim. Não é isto o que o texto quer dizer. Seria fácil para este rei justificar-se dizendo ter sido nada mais do que instrumento de vingança do Deus de Israel. Quem assim fala dá carta branca a todos os ditadores e opressores. Poderiam fazer o que bem entendem porque nada mais seriam do que executores do castigo de Deus. Não, e mais uma vez não! Deus tem outros meios para castigar os pecadores. Para tanto não precisa de criminosos, de tiranos, de gente sem dó e piedade. Certamente a interpretação que Israel deu à sua desgraça requer o nosso mais profundo respeito. Mas ela não serve como resposta para o problema do sofrimento como tal. Existe também desgraça não merecida. Violência não se justifica sob hipótese alguma. Ninguém tem o direito de se portar como "vingador de Deus."

 

Na verdade, o próprio texto que estamos refletindo deixa isto claro. Vejamos! O povo, cansado do sofrimento, clama a Deus. Pede socorro. E ele vai ser atendido. Deus não abandona a quem a ele se dirige. E é interessante como isto acontece. Na época, ainda antes do rei Davi, quem dirigia o povo de Israel, eram os juízes. Cuidavam do direito, julgavam causas jurídicas, tratavam da reconciliação entre partes em conflito. Mais ainda! Quando a situação o exigia, cuidavam da defesa de Israel frente a seus inimigos. Um dos grandes juízes nesse sentido foi Gideão, a um só tempo juiz e hábil guerreiro.

Merece destaque que entre esses juízes se encontram também mulheres. O texto fala de uma tal Débora, juíza e profetiza. Já naquela época, pois, havia mulheres em posição de liderança, sem que isto fosse sentido como impróprio ou escandaloso. Era algo natural. E, com efeito, desde que Deus criou homem e mulher à sua imagem em absoluta condição de igualdade, ambos participam conjuntamente da responsabilidade pelo bem estar das pessoas, da comunidade religiosa e da sociedade civil. Débora é disto um exemplo, mulher de renome no antigo povo de Israel.

E que fazesta mulher? Além de julgar as questões que as pessoas lhe traziam toma uma iniciativa para libertar Israel do jugo de Jabim. Como mulher evidentemente não podia chefiar um contingente militar. Por isto ela chama um homem de nome Baraque, aliás, assim como se chama o recém eleito presidente dos Estados Unidos. E ela lhe dá ordens de juntar dez mil homens no monte Tabor. É claro que o exército do rei Jabim, sob o comando do general Sísera, vai reagir e tentar derrotar os israelitas. Mas Deus dará a vitória a Baraque. Se lermos o texto na íntegra, veremos que Débora vai junto com Baraque, que Sísera perde a vitória e a vida e que Débora e Baraque se dirigem a Deus entoando um fervoroso cântico de louvor. Festejam a libertação da opressão estrangeira.

Prezada comunidade! A opressão nesse caso foi respondida com guerra, a violência com contra-violência. Não havia outra possibilidade. Às vezes a agressão exige a defesa armada. Ainda hoje é assim. Nós precisamos da polícia, do exército, dos militares. Seria muita ingenuidade querer abolir as forças armadas. Deixaria as pessoas indefesas frente à agressão do mal. Não, às vezes é necessário usar a força para reprimir o crime. E, no entanto, depois de experiências tão horrorosas como a segunda guerra mundial, os massacres produzidos por homens e mulheres bomba, a guerra civil que se trava em grande parte de nossos centros urbanos, violência se nos tornou algo extremamente suspeito. Qual foi a guerra que não se justificou com a necessidade da defesa contra a ameaça? Todo o mundo se defende, é claro. Ninguém agride. A violência sempre tem justificativa. É o que se diz.

Mas ela é um mal. Ela pode ser necessária, sim. Mas não deixa de ser um mal. Violência só gera violência. Por isto, cristãos inspirados em Jesus Cristo, vão preferir outra solução para os conflitos que a reação violenta. Devem tentar resolvê-los com meios pacíficos. É esta uma conclusão que não tiramos exatamente deste texto. Mas a Bíblia lida na íntegra não deixa dúvidas a esse respeito. A contra-violência deve ser considerada o último recurso quando todas as demais tentativas de fazer paz e de acabar com a opressão fracassaram. Débora e Baraque não tiveram outra chance a não ser a daqueles dez mil homens que derrotaram Sísera. Mas para nós é importante não esquecer os outros meios, os não violentos, para restabelecer a liberdade e combater o mal. Que Deus nos conceda muita sabedoria para sermos bons juízes e boas juízas nos conflitos deste mundo.

 Amém!

 

 



P. Gottfried Brakemeier
Nova Petrópolis, RS, Brasilien
E-Mail: gbrakemeier@gmx.net

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