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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

Domingo de Pentecoste, 31.05.2009

Predigt zu Ezequiel 37:1-14, verfasst von Rosane Pletsch

Estimadas irmãs e irmãos!

Que a graça de nosso senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão com o espírito santo estejam com todas e todos vocês.

Quero iniciar a reflexão sobre o texto de hoje, Ez 37.1-14, relatando-lhes a situação de uma mulher. Tomo este exemplo do cotidiano das ruas de Tegucigalpa, Honduras, onde vivo atualmente, mas podemos confrontar-nos com situações semelhantes em qualquer grande ou media cidade do Brasil e de outros países.

A mulher que a me refiro, encontra-se numa passarela, a qual preciso passar obrigatoriamente quando vou para o escritório da Igreja Luterana em Honduras. Ela está sentada no chão sujo, com forte odor de urina, com muita poluição sonora e tráfego de veículos. Ela tem em seu colo um bebê de poucos meses. A criança mama em seus seios magros, visivelmente sem alimento, parecendo tirar-lhes as ultimas energias que tem em seu corpo. Sua posição é de rastejar-se, não se distinguindo muito de um animal, tanto pela sua postura física, quanto pelo lugar em que se encontra. Com o bebê nos braços pede dinheiro ou algo para comer. E quando se dirige aos/as transeuntes, o faz com gestos e através de algumas incompreensíveis palavras, que mais parecem gemidos.

A imagem desta mulher é tão forte, que quando saio de minha casa já me lembro que vou encontrá-la e um mal estar se apodera de mim. E quando cruzo a passarela, eu a vejo, mesmo ela não estando ali fisicamente. Esta mulher está como que grudada em minha memória. Hoje eu a apresento a vocês que estão ouvindo esta mensagem. Nesta ultima semana não a tenho visto e sequer sei o seu nome. E me pergunto se ainda está viva. E pergunto também sobre o seu bebê. Onde estará esta mãe com a sua criança? O que a levou a tamanha tragédia? Onde estará o pai de seu bebê e seu próprio pai e sua mãe?

Entendo que esta mulher não é um caso isolado. Ela é como que o espelho da sociedade hondurenha: pessoas que tem seu corpo seco, esgotado, já quase sem vida. Ela representa também a sociedade brasileira, os/as camponeses, os/a trabalhadores/as de minas, as crianças e adolescentes de rua, os/as catadores/as de resíduos, etc. Muitas vezes penso comigo: Ah, como eu gostaria de evitar cruzar esta passarela, de forma a evitar esta mulher!  E confesso meu pecado que, em muitos momentos, somente cruzo por ela por ser a rua muito perigosa. Confesso, também, que dói demais ver a realidade de sofrimento desta mulher e ter conhecimento que se trata da dor de muitas pessoas, de países inteiros. Mas não há como negar esta realidade. Em meu caso, não há outro caminho. O encontro com a mulher é inevitável! E me dobro frente à sabedoria e o poder de Deus, que me toma em suas mãos e me faz ver e compreender esta realidade. Imagino que seja assim também na vida de vocês.

Compreender esta realidade não significa fazer uma analise à distância. O verbo compreender provém do latim comprehensio, e deve ser formada da preposição cum (com- em companhia de) e do verbo prehendere - agarrar, apanhar. Se formos observar os compostos da mesma origem: apreender, depreender, todos têm esse significado de "apanhar" para si, isto é retirar algo de algum lugar e conservá-lo. Quem compreende, apanha para si um significado. É interessante aí a presença da preposição de companhia "cum". A compreensão se faz sempre a partir de uma leitura, de uma fala, de uma experiência de vida. Não é possível compreender do nada, mas sempre em companhia de algo: um livro, uma frase, um acontecimento. No presente caso, uma realidade, uma mulher, um povo.

Eu entendo a passarela como a ponte que nos liga para estarmos com as pessoas, a trajetória que precisamos fazer para "estar com alguém". Deus nos conduz para compreendermos a realidade estando com as pessoas, vendo-as, ouvindo-as, tocando-as, assim como aconteceu com o profeta Ezequiel, que foi conduzido por Deus para um vale de ossos secos. E estando lá, o profeta teve que correr por todos os cantos do vale, o que o fez perceber que eram muitos, milhares de ossos secos.

Ezequiel foi um sacerdote que viveu em torno dos anos 586 a. C. Foi levado cativo, exilado para a Babilônia, junto com muitos/as israelitas. E sob a forte opressão do grande império babilônico foi levado, por Deus, a pregar, a anunciar o juízo e a misericórdia de Deus. Não foi, com certeza, uma tarefa fácil. Ao longo do livro fica evidente a enorme dificuldade que encontraria nesta tarefa. Então Deus o pergunta: "Crês tu que estes ossos poderão voltar a ter vida?"  No caso da experiência compartilhada acima, cheguei a pensar que não teria mais nada a dizer e fazer. Podemos simplesmente considerar impossível, difícil demais mudar uma realidade assim. Outras vezes podemos nos justificar dizendo que esta mulher não quer trabalhar, por isso pede esmolas. Outras vezes pensamos que sempre existiram pobres e que a vida é assim mesmo.

O profeta Ezequiel responde ante a pergunta de Deus sobre a possibilidade de os ossos voltarem a ter vida: "Senhor, só tu o sabes". Ele se deixa guiar por Deus e fala o que Deus lhe diz: "ossos secos, escutem esta mensagem do Senhor. O senhor lhes diz: Vou fazer entrar em vocês o sopro de vida, para que revivam. Eu lhes colocarei tendões e músculos, vou cobri-los de  pele e vocês se colocarão de pé." E o que seria este sopro de vida que Deus quer colocar no corpo da mulher, acima descrita, e no interior das sociedades pobres?

Certo é que sempre houve sopros em nossas sociedades. Quando da colonização da America, foram os sopros opressores que dizimaram os povos indígenas. Foram também os sopros que moldaram uma espiritualidade de esmolar, de submissão, de subserviência, representada pela mãe com o seu bebê no colo. Na atualidade, impetra-se em nossos corpos o sopro do capitalismo, do ter, do possuir, do obter lucro. E junto com o sopro vem a prática de explorar as pessoas, de demiti-las de seus empregos quando não são mais úteis, de violentar o planeta, envenenando a terra e as águas. E não por último, o sopro de endurecer-nos para que percamos a sensibilidade e a solidariedade.

Ao invés disto o espírito de Deus é o sopro que  aproxima as pessoas e os mundos; que gera compaixão; que conduz para a prática da solidariedade, da justiça e do cuidado. É alento de vida. Assim como eu cruzo a passarela comovida no mais profundo do meu ser, assim vejo que outras pessoas também procedem. A solidariedade, a compaixão e a indignação ainda existem em Honduras, graças a Deus. Deus está presente por estes cantos do mundo, assim como no Brasil, fazendo entrar em nossos corpos, em nossas instituições, em nossa igreja, em nosso círculo de amigos, o alento de vida, que faz as pessoas recuperar a sua energia, a sua força física, os seus sonhos. E as coloca em pé, em postura de dignidade.

E Deus toma você pela mão, dirigindo você a lugares de morte em nossa sociedade, para ali profetizar. E eu pergunto: que vales de ossos secos você encontrou nos últimos dias? Qual foi a sua opinião sobre o fato? Como você procedeu?  Que sopro você emitiu? Na condição em que cada um e uma de nós é chamado por Deus, cabe-nos a maturidade da fé. Não fugir, não fingir, não justificar, não temer. É hora de encarar, de estar com, de enfrentar, de compartilhar. E Deus coloca nas entranhas de cada um de nós o sopro, o alento de vida, que nos faz levantar, nos colocar em pé, sair de nosso lugar e profetizar, assim como ocorreu com o profeta Ezequiel.

No interior de cada um e uma de nos mora a solidariedade adormecida, endurecida pelo tempo em que estivemos debruçados sobre nós mesmos/as. No fundo de cada ser, repousa uma palavra de vida, um feixe de luz, um espírito atuante. No corre-corre de cada dia talvez não percebamos isso. Mas no dialogo profundo com o nosso próprio ser e com Deus, descobriremos esta fonte de vida que Deus soprou em nós. E com maturidade poderemos dizer como Ezequiel quando foi perguntado por Deus: "Crês tu que estes ossos poderão voltar a ter vida? E ele responde: Senhor, só tu o sabes".  E Ezequiel se arrisca a ir: fiel e capaz.

E quanto a mim, procurarei não fugir da mulher e de seu bebê. Procurarei me encontrar com ela e o mundo das gentes pobres que ela representa. E se também você o fizer, seremos dois, três e certamente mais. Vamos nos levantar todos e todas: os/as pobres economicamente, os/as oprimidas pelas relações hierárquicas de poder, as pessoas com espiritualidade fria e insensível e nós todas e todos, de nosso profundo sono na apatia. E, então, seremos milhares, movidos e movidas pelo Espírito de Deus. Vai ser um novo Pentecostes.

E em manifestação deste compromisso convido a nos levantarmos, cada um em seu tempo e de sua forma. E convido a falar desta experiência, de compartilhar seu desafio, de cruzar por vales de ossos secos e de soprar neles o alento de vida.

Amém Senhor.



Pa. Rosane Pletsch
Tegucigalpa, Honduras

E-Mail: rosanepletsch@uol.com.br

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