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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

18° Domingo após Pentecostes , 04.10.2009

Predigt zu Gênesis 2:18-24, verfasst von Harald Malschitzky

 

Querida comunidade.

Mulheres e homens exercem atração uns pelos outros. Não é preciso fazer grandes estudos para constatá-lo. O desejo último dessa atração é conviver, é viver em conjunto, é partilhar a vida solidariamente. O fato de que o número de separações de casais cresce assustadoramente, não muda nada nisso. Também pessoas separadas buscam uma nova chance para reconstruir a vida em companheirismo e partilha. E o espaço privilegiado desse conviver e partilhar é o matrimônio. Sabemos que também o matrimônio é marcado pelas características muito humanas do casal, mas nem por isso deixa de ser espaço privilegiado de vida com sentido, com amor partilhado, com solidariedade radical. É uma pena que se fala pouco dos milhões e milhões de casais que caminham, desfrutam e partilham a vida juntos até a velhice. Casais que vão bem não rendem notícia e nem vendem jornal, e nas novelas aparecem, quando muito, à margem da trama central. Mas, mulheres e homens se encontram e relacionam também na sociedade, no trabalho, na rua, nas igrejas sem necessariamente assumirem compromisso último uns pelos outros. Também esse relacionamento pode ser prazeroso, construtivo, solidário, bonito simplesmente.

Não é novidade, porém, que esse relacionamento muitas vezes é complicado. Ensina-nos a história da humanidade e também a história das igrejas, que uma das dificuldades reside no fato de existirem discriminações de gênero, discriminações entre homens e mulheres, via de regra de homens em relação a mulheres. Temos que admitir e confessar que teólogos e igrejas inteiras contribuíram e ainda contribuem para que isso seja assim. A mulher, segundo essa teologia, é inferior ao homem. E há passagens bíblicas que até podem ser lidas nesta linha. Mas olhando o todo da mensagem bíblica, se evidencia uma imagem bem diferente. Vamos ouvir um trecho das primeiras páginas da Bíblia que fala do assunto.

Ler o texto

Adão dorme e Deus age, o mesmo Deus que criou tudo o que existe e que viu que sua criação era boa. Adão antes disso se limitara a estar no paraíso. Até ganhou a tarefa de dar nome aos animais. Mas foi o próprio Deus que constatou não ser bom ao homem estar só! Por isso ele criou a mulher "uma ajudadora que fosse como a sua outra metade" ou, na versão mais antiga, "uma auxiliadora que lhe fosse idônea". Para dizê-lo logo: Em nenhuma das duas traduções está escrito que Deus fez uma empregada honesta e pontual! Aliás, em nenhuma tradução séria, em qualquer idioma, se poderá ler isso. Muito pelo contrário: Deus cria alguém sem o qual o próprio Adão é só parte. Pobre Adão se Deus não lhe viesse em socorro: Deus vê a sua solidão e lhe cria uma companheira. Como se isso não bastasse, é Deus quem apresenta a mulher a Adão. Imagino que Adão estava estupefato, quem sabe ficou vidrado naquela pessoa que Deus lhe apresenta: "Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos. Ela será chamada ‘mulher' porque Deus a criou do homem" (v.23).

É uma pena que no português as palavras para designar homem e mulher sejam tão diferentes, a ponto de a gente nem entender muito bem a lógica de Adão. Isso tem a ver com a própria língua. No hebraico a palavrinha para designar mulher e homem tem a mesma raiz. O feminino tem apenas uma letrinha a mais. Daí a lógica na exclamação de Adão. A dificuldade que existe no português, existe também no alemão. Lutero tentou solucionar o problema criando uma palavra. Homem é Mann e ele fez o feminino Männin. Na verdade, o feminino de Mann é Frau. A sugestão de Lutero não vingou! Sabe-se lá quanto estas palavras tão diferentes contribuíram para uma infinidade de absurdos na interpretação do nosso texto. Mulher e homem, homem e mulher são semelhantes, dos mesmos ossos, da mesma carne - esta é a mensagem que o texto deseja transmitir.

Não que se ignorem também as diferenças, mas estas não são hierárquicas! Por causa delas um não é melhor do que o outro. Mulher e homem têm papéis diferentes já na procriação, têm aptidões diferentes, têm dons diferentes, assim como, aliás, os seres humanos em geral, sem distinção de gênero, têm dons diferentes. O mundo que temos em boa parte é fruto da multiplicidade de dons. Ninguém pode ignorar os benefícios de descobertas, avanços e desenvolvimento em todas as áreas da vida. Vivemos e desfrutamos esta realidade. Mas seria cegueira e pecado ignorar que o mau uso de capacidades e dons do mesmo ser humano está pondo em risco toda a existência do planeta e da vida. No entanto, não se podem atribuir méritos ou culpa diferenciada aos homens ou às mulheres só por serem de sexo diferente.

Mas é justamente isso que aconteceu na história da humanidade, sob inúmeras formas. E a história da igreja, em particular, está marcada por isso. Houve momentos em que a teologia afirmava que a mulher é a grande culpada da perda do paraíso. Ela se deixou levar na conversa. Omite-se, porém, que o Adão também se deixou levar na conversa! A partir daí toda a sexualidade - centrada na mulher - passou a ser encarada como pecado. Num momento obscuro da história da igreja, mulheres - sempre mulheres - foram queimadas por bruxaria. A criação de irmandades e conventos, sem dúvida tinha sua motivação na fé, mas carregava também o objetivo da pureza e virgindade, enquanto que os mosteiros masculinos - com toda a sua seriedade de fé - eram uma forma de fugir da tentação da carne. Na raiz de celibato cristão está também a suposta pecaminosidade do sexo. Lutero, dando destaque aos dons que Deus dá e casando-se com a ex-freira Catarina, deu um passo decisivo em direção de homens e mulheres se entenderem como parceiros. Isso não foi simplesmente sua descoberta, mas é resultado de muita leitura bíblica. Não lhe poderia passar despercebido que Jesus tomava mulheres e homens a sério com criaturas de Deus e por ele amadas, tanto que mais de uma vez entrou em choque com a sociedade de sua época pelo jeito de se relacionar com mulheres. É claro que também não lhe passou despercebido que o apóstolo Paulo por vezes é por demais filho do seu tempo!

Será que nós, gerações modernas e pós-modernas aprendemos a lição? Ainda não. O movimento feminista, entre outros, logrou abrir espaços e pôr em nossas cabeças outras perspectivas. Poderíamos dizer que em boa parte do mundo mulheres e homens assumem funções de liderança lado a lado. Poderíamos invocar o fato de que em diversos países as governantes são mulheres. Isso, porém, não nos deveria levar à falsa conclusão de que já compreendemos Gênesis 2. Quantas igrejas, por exemplo, não admitem o ministério feminino? É fato notório que, em geral, os salários das mulheres, em funções idênticas às de homens, são menores. Nas famílias continua a realidade de que as mulheres fazem dupla e tripla jornada, porque a elas estão afeitas "as lides da casa e o cuidado com os filhos". A violência contra a mulher nos lares fez com que, não só no Brasil, surgissem delegacias especiais para atender mulheres que sofrem violência em casa de parte de marido ou companheiro.

Será que tudo está perdido? Não, não mesmo. Já foram alcançadas muitas coisas e cresceu o reconhecimento de que mulheres e homens podem viver, partilhar e compartilhar a vida na família, no trabalho e na sociedade. E não deixa de ser imensurável a bênção que casais e famílias vivem por terem aprendido a riqueza da diversidade de dons, de sexo, do conviver e repartir dos diferentes dons. O mesmo se pode dizer de ambientes de trabalho onde impera companheirismo autêntico. Continuamos tendo tarefas. A pós-modernidade por si só não nos tornou mais humanos, compreensivos, solidários. Para isso teremos que sentar continuamente na escola da Sagrada Escritura e ouvir as vozes de tantas testemunhas que perceberam a grandeza da criação como um todo, um conjunto, uma convivência e uma partilha. O amor indiscriminado de Jesus pelo ser humano como tal precisa inquietar-nos e colocar-nos no caminho bom para os seres humanos, para as criaturas, para o mundo. E um desses caminhos bons pelo qual devemos agradecer é termos nascido mulheres e homens dos mesmos ossos, da mesma carne.

Amém

 


 

 

 

 



P. Harald Malschitzky
São Leopoldo, RS, Brasilien
E-Mail: harald.malschitzky@terra.com.br

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