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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

1º Domingo na Quaresma , 13.03.2011

Predigt zu Gênesis 2:15-17; 3:1-7, verfasst von Carlos F. R. Dreher

 

Prezada comunidade!

Nestas últimas semanas antes da Paixão de Cristo, algumas notícias que circularam nos meios de comunicação nos deixaram assustados.

- Em Porto Alegre, um motorista desequilibrado psiquicamente arremeteu o seu automóvel para dentro de um grupo de ciclistas que faziam uma passeata. Dezenas de pessoas foram derrubadas com suas bicicletas, nove foram levadas ao pronto-socorro. O motorista fugiu do local. Mais tarde apresentou-se e ficou preso. O assunto foi discutido e comentado amplamente. Um psicólogo fez uma observação interessante: Temos a impressão de que no subconsciente dos motoristas de veículos automotores age um sentimento aristocrático: Ao volante somos superiores aos pedestres, ciclistas, motociclistas e carroceiros. Essa plebe tem que sair da frente e mostrar respeito. Temos mais força no pedal, mais dinheiro no bolso; com isto temos poder sobre os outros.

- Muammar El-Gadhafi, ditador da Líbia, vem resistindo ao desejo de seu povo de que entregue o poder. Ele continua massacrando massas de manifestantes civis. Faz manobras com promessas falsas e age por sede de poder e desejo de dominar à custa do sangue de muitas pessoas.

- A 8 de março foi celebrado em todo o mundo o Dia Internacional da Mulher. Para esse evento convergem várias correntes centenárias da conquista de direitos para as mulheres. São movimentos de resistência à submissão e à marginalização da mulher que vem se prolongando na sociedade e na família.

Será que sede de poder e desejo de sobrepor-se aos outros são traços característicos da natureza humana? A tradição bíblica parece confirmá-lo. Isso aparece direta ou indiretamente em cenas que falam da luta por supremacia entre irmãos. Lembro Caim e Abel, Ismael e Isaque, Esaú e Jacó. A Bíblia relata a concorrência pela supremacia entre mulheres a exemplo de Hagar e Sara. Também aborda a questão da liderança política que passa por processos de concorrência e imposição de poder, muitas vezes com ações criminosas como no caso do rei Davi. Mas, o que dizer da submissão da mulher? Não, ela não faz parte da natureza humana. Talvez aquilo que o livro de Gênesis diz sobre homem e mulher nos possa dar melhor compreensão.

A "estória" de Adão e Eva no paraíso fala muito mais da igualdade entre homem e mulher e das características que distinguem um do outro. Melhor dizendo: Ambos são iguais na liberdade de escolha e de decisão, mas um é diferente do outro nas funções naturais de convívio. Certo é que um precisa do outro. Entretanto, o problema trabalhado na cena de Genesis 3. 1-7 não é a disputa por superioridade entre Adão e Eva. O problema está na limitação de ambos diante do desconhecido, ou melhor, diante do próprio Deus, o desconhecido por excelência! Aí surge algo novo: A tentação.

O ser humano é pesquisador; busca a verdade; é curioso, busca compreender as coisas e o mundo ao seu redor; deseja superar suas limitações. Quando esbarra numa barreira intransponível é assaltado pela tentação de fazer tudo para vencê-la. Não lhe basta correr num automóvel que chega a 400 km por hora - tem que construir um que vá a 1000 km! Não lhe basta chegar à lua - precisa chegar a Plutão ou a outro sistema estelar com novos planetas! Isto se estende a todos os campos de conhecimento, das ínfimas partículas do átomo até os limites do universo; estende-se também a todos os campos de relacionamento com o seu semelhante e outros seres: Quero ser mais que eles!

Eis a pergunta inicial neste capítulo: "É verdade que Deus mandou que vocês não comessem as frutas de nenhuma árvore do jardim?" A mulher vai direto ao ponto: "Podemos comer dos frutos de todas as árvores do jardim; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim Deus disse: Dele vocês não comerão, nem tocarão nele, para que não morram." "Porque isso?" Assim reage o tentador. E a resposta que Adão e Eva recebem é uma interpretação da época em que a história foi contada: "No dia em que vocês comerem desse fruto, os seus olhos vão se abrir e vocês serão conhecedores do bem e do mal, como Deus." A tentação é total para os seres humanos: ter domínio sobre todo o conhecimento e ser igual a Deus! É a última barreira a ser transposta.

E ambos cederam à tentação de avançar o sinal. O fruto proibido era muito atraente e tinha que ser experimentado! E o resultado? Depois de desobedecerem à ordem de Deus, reconheceram-se como seres humanos, não como deuses. Descobriram que eram nus e passaram a conhecer suas deficiências, suas limitações e carências. Tiveram que assumir a sua natureza. Agora sabiam a verdade: É preciso confiar em Deus, aprender a ser criativo e trabalhar para sobreviver.

E Eva? Ela foi mesmo mais fraca do que Adão ao ceder ao desejo de comer a fruta? Ela arrastou Adão consigo para a desobediência? Será por isto que a mulher deve ser submissa ao homem?

Donna Woolfolk Cross dos Estados Unidos da América escreveu o livro „Pope Joan" ("Papisa Joana"). Nesse livro, a menina Joana discute com um intelectual do século 9. O assunto é a submissão da mulher. Na época as mulheres estavam proibidas de aprender a ler e escrever. Por esse motivo não queriam admitir Joana na escola. Mas a menina queria aprender mais! No debate, o diretor da escola argumenta que Eva havia pecado quando cedeu à tentação, quando apanhou e comeu do fruto proibido. Isto seria a prova de que a mulher é inferior ao homem e não tem condição intelectual para estar numa escola. A menina argumentou que Eva apenas estava ansiosa por aprender mais e ainda compartilhou sua descoberta com Adão, por amor a ele. Por que ela deveria ser submissa a ele? Joana foi admitida à escola. A autora do livro então desenvolve a história impressionante do desenvolvimento intelectual dessa menina e de sua luta contra a discriminação da mulher, até se tornar a Papisa Joana.

Hoje já estamos em condição de entender que os direitos de homens e mulheres são iguais. Ambos convivem para se complementar. Quando isto não acontece, certamente há alguma distorção ou algum erro histórico na compreensão das coisas. Quando os apóstolos Paulo e Pedro recomendam que a mulher seja submissa ao marido, é este o caso. Trata-se de uma distorção temporária, que carece de correção. Os apóstolos eram representantes de sua época; não podiam saber nem falar diferente. Ainda assim há passagens no Novo Testamento que apregoam em termos vigorosos a igualdade de homens e mulheres. Jesus não admite discriminação e muito menos a violência contra a mulher. Por isto mesmo, nós cristãos somos chamados a dar testemunho da igualdade de direitos de homens e mulheres e do amor solidário, que vai muito além da relação de um casal. Justamente por se ancorar no poder de Deus e no seu amor revelado por Jesus Cristo, o compromisso de igualdade e solidariedade abrange toda a família humana, sem distinção.

O Evangelho deste domingo nos encaminha nesta direção. A história da tentação de Jesus conforme descrita no quarto capítulo do evangelho de Mateus mostra-nos um Jesus que assume nossa natureza, que sofre como nós, mas resiste às tentações: Depois de um jejum de 40 dias, se nega a transformar pedras em pão para matar sua fome. Vejam só: Ele, que deu de comer a 5 mil pessoas famintas, não quer usar seu poder em benefício próprio. E busca força na fé: "Não só de pão vive o homem, mas da palavra que vem da boca de Deus." Também não cede à tentação de se jogar do alto do templo para testar o poder de Deus prometido no Salmo 91: "Aos seus anjos ordenará que te guardem; eles te sustentarão nas suas mãos." Ele confessa obediente: "Não tentarás o Senhor, teu Deus". Mateus finaliza a narração com a opção de Jesus de se submeter totalmente ao poder de Deus. Assim Jesus renuncia a toda a riqueza e ao poder de todos os reinos deste mundo.

Com isto Jesus destrói o poder da tentação, a que também nós somos expostos: a tentação de grandeza e de poder sobre outros, com que adoramos a nós mesmos e diminuímos o valor dos outros. "Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e somente a ele darás culto."

Que assim posamos viver em paz uns com os outros, como família em nosso lar, bem como entre todos os povos da família humana!

Amém!



P. Carlos F. R. Dreher
Porto Alegre, RS, Brasil
E-Mail: carlos.dreher@terra.com.br

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