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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

Sexta-feira Santa, 06.04.2012

Predigt zu Isaías 52:13-53.12, verfasst von Gottfried Brakemeier

 

Estimada comunidade!

A Sexta-feira Santa é um dia de luto, sim. Mas não só. Ele é também o dia de uma grande vergonha. É disso que nos lembra o profeta Isaías no texto que acabamos de ouvir. Ele fala de alguém desprezado, vítima de maus tratos, levado para ser morto. "E ninguém se importou..." Depois ele foi sepultado junto com os malfeitores, embora jamais cometesse crime algum. Esse homem sofreu! Foi ferido em corpo e alma. Sofreu agressões físicas e psíquicas. Diante dele as pessoas escondiam o rosto porque não queriam vê-lo. Diziam que ele seria um castigado por Deus. Pois quem carrega tamanhas dores deveria ser um maldito a quem até mesmo Deus teria dado as costas. Isaias descreve a sorte de uma pessoa desgraçada, abandonada por todo o mundo e aparentemente abandonada também por Deus. E a culpa, de quem é?

Na época de Isaías a opinião pública dizia: Ele mesmo. Sofrimento é castigo. Quem sofre deve ter cometido algum pecado, ofendido a Deus, desobedecido às leis sagradas. Por isto mesmo é desnecessário ter compaixão. O conselho é: Confesse seu pecado, faça penitência, corrija a sua conduta. Então as coisas vão voltar a entrar no eixo. Até lá você não deve surpreender-se com as pancadas que leva. Pois gente culpada não merece outra coisa. É gente sobrando, estorvando, gente a ser eliminada. Assim se pensava.

Mas não é isto o que o texto diz. Pelo contrário! Ele denuncia uma barbárie, crueldade, nós diríamos violação do direito humano. Este sujeito, ao qual o profeta Isaías se refere e que ele chama de servo, é inocente. Culpado não é ele, culpados são os outros, são todos os que despejam sobre ele sua raiva, suas agressões, seu cinismo. Aparentemente eles têm prazer em torturar uma vítima. Como faz bem judiar outros sem precisar temer vingança. O servo, de que o texto fala, é indefeso. Não tem como se defender. Tanto mais atrativo é como objeto de desenfreada violência.

Será esta uma mentalidade apenas do passado? Quem afirma isso se engana. Penso nos crimes cometidos por gangues nas nossas cidades em índios, idosos, empregadas domésticas, homossexuais. A mídia informou sobre tais casos. Penso na sorte de presos políticos, vítimas de terríveis torturas, seja em outros países, seja no Brasil na época da ditadura militar. Até hoje os crimes aí cometidos aguardam apuração e penalização. Existem pessoas que têm verdadeiro prazer em causar sofrimento. Penso enfim na praga do "bullying" entre jovens e adolescentes, para o que é usado cada vez mais a internet, o "facebook". Algo análogo acontece através do "mobbing" no lugar de trabalho. Pessoas são perseguidas, humilhadas e brutalmente demolidas. Acontecem coisas diabólicas nesse mundo, produzindo horror, temor, sofrimento. Que vergonha para uma sociedade que se pretende civilizada!

Vergonha é também o que este servo de Isaías deve agüentar. É injustiça horripilante, é tortura mesmo, é toda sorte de cinismo. Verdade é que ele não era pessoa bonita, vistosa. Não era daqueles que aparecem nas capas das revistas. Mas por que excluir uma pessoa assim da comunhão humana? Não! Não foi ele que pecou. Quem pecou foram os seus torturadores. Eles jogam sua maldade sobre ele e lhe causam dor. Isto é pecado. O próprio profeta se inclui. Ele reconhece sua cumplicidade. Fala em "nós". Ele admite ser também ele produtor de sofrimento alheio. É co-responsável por aquela lógica infernal que tem prazer em fazer outros sofrer. Daí porque ele confessa que o servo sofreu por causa dos "nossos" pecados. Foi a "nossa" maldade, foi o "nosso" instinto assassino que o fizeram sofrer e morrer. Ele é inocente, enquanto nós somos os criminosos. Assassinamos o homem da dor. O ser humano tem uma veia assassina. Este é o seu pior pecado.

Muito se discutiu sobre a identidade deste servo. Quem seria? Isaías o chama de "servo de Deus". Verdade é que ele tem muitos semelhantes neste mundo, ontem e hoje. São pessoas que sofrem perseguição, injustiça, tortura. Mas este servo tem algo de especial. Não é igual a outros. É um enviado de Deus para eliminar o pecado. Ele sofre sem reclamar. "...agüentou tudo humildemente, e não disse uma só palavra." O servo de Deus não revidou. Em vez disso perdoou. Suportando o pecado que nele se cometeu, quebrou a espiral da violência. Diz o provérbio: Vingar-se é humano, perdoar é divino. Portanto, foi divino o agir deste servo. É mesmo um servo de Deus.

Então, quem foi, quem é este servo? As respostas foram muitas. Teria sido um profeta anônimo, se dizia, ou até mesmo o povo de Israel. A comunidade cristã não se deu por satisfeita com nenhuma delas. Reconheceu neste servo muito antes o rosto e a sorte de Jesus Cristo. Este servo é a imagem do crucificado. Basta ler a história da paixão para descobrir surpreendentes semelhanças. Não há maldade humana que nesta história não tivesse réplica. Jesus teve que sofrer todo tipo de pecado humano, inclusive o deboche público e o abandono por parte de seus amigos. Sofreu uma morte horrível. Mesmo assim, ele não revidou nem desesperou. Sentiu-se abandonado até mesmo por Deus, sim, mas não deixou de clamar a ele. Dirigiu-se a ele como "Deus meu!" Eis, o servo de Deus que carrega o pecado do mundo.

Existem países em nosso globo que punem a ofensa a Deus com a pena de morte. Blasfêmia seria um crime imperdoável, passível da pena capital. Sob tais condições os carrascos de Jesus deveriam ser todos exterminados, mortos, liquidados. Pois a história da paixão de Jesus é o documento de uma grande blasfêmia, de uma grande ofensa a Deus. O crucificado, porém, pensa de modo diferente. Assim como aquele servo do texto de Isaías, ele perdoa em vez de condenar à morte. Ele não odeia seus inimigos. Reprova a violência em nome de Deus. Por isto mesmo não há como sustentar um parágrafo na legislação civil, prescrevendo que se deve punir quem agride a Deus. Se Deus perdoa, com que direito o estado vai castigar? Aliás, um Deus que exige vingança é outro do que aquele do Jesus crucificado.

A crucificação foi um evento que se deu há dois mil anos atrás. Nós não assistimos a esse horroroso acontecimento. Então, que temos a ver com essa história? Nós não matamos Jesus. Culpados são outros a exemplo de Pôncio Pilatos, o sinédrio, os soldados romanos, o povo que grita "crucifica-o". Nós estamos fora. Por que lembrar sempre de novo essa tragédia? Ora, em primeiro lugar se deve dizer que Jesus ressuscitou. Aconteceu o que o profeta Isaías já havia prenunciado com relação ao servo de Deus, a saber, que ele vai ocupar um lugar de honra (53.12). Cumpriu-se a promessa dizendo que "ele será louvado e receberá muitas homenagens" (52.13). Ou para dizê-lo em termos do Novo Testamento: "Por isto Deus deu a Jesus a mais alta honra..para que ao nome de Jesus todas as criaturas... caiam de joelhos" (Fp 2.9s). Aquele que há dois milênios foi crucificado, é o nosso Senhor que perdoa também os nossos pecados. Mas ele o faz somente, se tivermos a coragem de seguir o exemplo de Isaías. Este profeta confessou sua cumplicidade no pecado cometido no servo de Deus. E nós? Nós não estivemos no Gólgota. Certamente não! Mas essa "veia assassina", da qual falei, a indiferença com relação a Deus, a falta de amor ao próximo e outros "defeitos", estaremos livres deles? Cada um deve dar a sua resposta em particular. Mas lembremo-nos: Deus requer honestidade.

A Sexta-feira Santa é um dia de luto, sem dúvida alguma. Nós comemoramos a morte de Jesus de Nazaré, grande profeta, servo de Deus. A comunidade cristã se confessa enlutada. Jesus plantou neste mundo a fé, o amor e a esperança. Louvado seja o seu nome! Simultaneamente, porém, o dia de hoje nos lembra a vergonha de um mundo violento. A morte de Jesus foi um brutal assassinato. Foi um triunfo da maldade humana. E essa maldade continua fazendo vítimas. Porque não conseguimos acabar com o escândalo da violência? Nós agradecemos a Jesus pelo seu amor, pela sua paciência, pela disposição ao auto-sacrifício. Da mesma forma, porém, deveríamos entender este dia como incentivo para nos engajar no combate à violência na sociedade. Violência não precisa existir. Então, por que existe?

Amém!



Prof. Dr. Gottfried Brakemeier
Nova Petrópolis, RS, Brasil
E-Mail: gbrakemeier@gmx.net

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