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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

2º Domingo após Pentecostes, 22.06.2014

Um desabafo
Predigt zu Jeremias 20:7-18, verfasst von Martin Weingaertner

 

                                                            1 - Onde depositar nosso lixo tóxico?

Nos anos 70 e 80 presenciei as novas técnicas agrícolas sendo assimiladas por pequenos agricultores na serra catarinense. Inicialmente ninguém se preocupava com toxidade dos vasilhames de agrotóxicos. Com o tempo foi-se compreendendo sua periculosidade e as prefeituras começaram a construir lixeiras coletivas. Todos queriam livrar-se dos frascos envenenados, mas não havia quem aceitasse que uma lixeira fosse construída em suas terras.

Algo semelhante acontece com o lixo radioativo. Desde o acidente com césio 135 em Goiânia, há quase três décadas, o governo federal procura estabelecer um depósito definitivo para o lixo radioativo, mas nenhum estado ou município querem acolhê-lo! Por isto ele continua espalhado em abrigos provisórios até o próximo acidente...

Episódios como estes são algo muito humano! Quem já vai querer o que outros contaminaram? Sempre se repetirá o que Judas experimentou quando, tomado por remorsos, tentou livrar-se das moedas pelas quais traíra Jesus: ao devolve-las, seus aliciadores não as receberam. Desejamos todos livrar-nos do nosso lixo tóxico, mas ninguém se dispõe a recebe-lo. E, em se tratando de toxinas "religiosas", as coisas até pioram!

É justamente para dentro deste pântano da alma que Jeremias nos guia!

 

                                                              2 - Profeta decepcionado com Deus

Jeremias fora vocacionado ainda jovem em 626 a.C., 4 anos antes de encontrarem o livro da lei que motivou a reforma religiosa de Josias (2Rs 22ss.): "A palavra do  Senhor veio a mim, dizendo: 'Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações' " (Jr 1.4s.). Sem permitir-lhe que se esquivasse Deus incumbiu Jeremias de anunciar tudo o que lhe ordenou, encorajando-o a não temer a ninguém, pois estaria com ele para protegê-lo (v.7s). Em duas visões o Senhor lhe confirmou esta incumbência. Primeiro viu um "ramo de uma amendoeira" com brotos (v.11) e, depois, "uma panela fervendo... inclinada do norte para cá" (v.13). No seu livro o profeta testemunha que o "ramo" indicava que Deus cumpriria sua palavra e a "panela", que os babilônios viriam do norte para "derramar a desgraça" sobre Judá (v.14).

Como Jeremias não se reportou à reforma de Josias, parece que ele só veio a público depois da morte do rei na batalha contra os egípcios em 609 a.C. Seu ministério se estenderia até 582 a.C., quando foi levado cativo ao Egito (Jr 40-42). Por mais de quatro décadas conclamou seu povo ao arrependimento diante da iminência o juízo de Deus. Fez isto em debates públicos e sermões; em livros ("rolos"), cartas (Jr 36 e 29) e gestos simbólicos (Jr 7,29; 19; 27 e 32). Foi preso diversas vezes e escapou, por pouco, de ser morto (Jr 20; 26; 37s).

Este breve apanhado já nos leva a perguntar como o profeta suportou décadas de hostilização e inimizade. Deus o havia prevenido e lhe dera uma promessa: "E você, prepare-se! Vá dizer-lhes tudo o que eu ordenar. Não fique aterrorizado por causa deles, senão eu o aterrorizarei diante deles. E hoje eu faço de você uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e um muro de bronze, contra toda a terra: contra os reis de Judá, seus oficiais, seus sacerdotes e o povo da terra.  Eles lutarão contra você, mas não o vencerão, pois eu estou com você e o protegerei" (Jr 1.17-19).

Mas, uma coisa é receber uma promessa, bem outra, é vivenciá-la. Quando Deus mandou Jeremias despedaçar um vaso de barro diante de "alguns líderes e sacerdotes", depois de anunciar-lhes a destruição de Jerusalém por causa da sua idolatria (Jr. 19), o "sacerdote Pasur... mandou espancar o profeta e prendê-lo no tronco". Ao ser solto Jeremias anunciou a este sacerdote que o Senhor faria dele "um terror para si mesmo e para todos os seus amigos" (Jr 20.1-6).

Neste enredo insere-se a oração na qual o profeta nos deixa entrever o que se passou no seu coração. Percebe-se nela o quanto a incumbência recebida pesava sobre ele:

7 "Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste.
Sou ridicularizado o dia inteiro; todos zombam de mim.
8  Sempre que falo é para gritar que há violência e destruição.
Por isso a palavra do 
Senhor trouxe-me insulto e censura o tempo todo.
9  Mas, se eu digo: 'Não o mencionarei nem mais falarei em seu nome',
é como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim.
Estou exausto tentando contê-lo; já não posso mais!
10  Ouço muitos comentando:
'Terror por todos os lados! Denunciem-no! Vamos denunciá-lo!'
Todos os meus amigos estão esperando que eu tropece, e dizem:
'Talvez ele se deixe enganar; então nós o venceremos e nos vingaremos dele'."

Jeremias não fez uma oração comportada como as que estamos acostumados a ouvir em nossas liturgias. É um desabafo fortíssimo que expõe as angústias do fundo da sua alma. (Que instituição religiosa não se apressaria em afastar um clérigo seu que ousasse pronunciar algo semelhante em público?).

O início do v. 7 poderia ser traduzido de modo mais brando - Senhor, tu me persuadiste, e eu fui persuadido. Mas na continuação Jeremias fala de prevalecimento, de modo que a expressão de lamento é, de fato, muito forte. O profeta estava disposto a servir ao Senhor, mas não aguentava ser ridicularizado e sofrer zombaria, insulto e censura o tempo todo. Não foi mero bullying, não, pois ele foi acoitado e - preso ao tronco - exposto publicamente junto à porta do templo. Sofreu os olhares debochados e a hostilizações de quem entrava e saía. E tudo isto lhe sucedeu na casa do Senhor por anunciar palavra dele.

Mais do que estas humilhações atormentava-o o fato de não poder silenciar. Sempre que tentara cair fora, era consumido por "um fogo" ardendo em seu coração! O seu constrangimento não era exterior, mas o percebia "dentro" de si, em sua consciência. Estava num caminho sem volta.

Por fim menciona que "todos os (seus) amigos" estavam à espreita para flagra-lo, pisando em falso e "tropeçando"! Qualquer jogador de futebol sabe o quanto pesa sobre seu estado emocional ser vaiado pela própria torcida! Mas um atleta enfrenta isto, no máximo, por 90 minutos, não a vida inteira.

11 "Mas o Senhor está comigo, como um forte guerreiro!
Portanto, aqueles que me perseguem tropeçarão e não prevalecerão.
O seu fracasso lhes trará completa vergonha; a sua desonra jamais será esquecida.
12  Ó Senhor dos Exércitos, tu que examinas o justo e vês o coração e a mente,
deixa-me ver a tua vingança sobre eles, pois a ti expus a minha causa.

13  Cantem ao Senhor! Louvem o Senhor!
Porque ele salva o pobre das mãos dos ímpios."

O que pode tirar o profeta deste estado d'alma? Como enfrentar o colapso das suas forças e a potenciação da amargura que se alastrava na alma?

Em seu desespero Jeremias apegou-se às promessas que Deus lhe fizera quando o vocacionou! Por isto declarou alto e bom som que "Senhor está comigo, como um forte guerreiro!" e reafirmou sua confiança na vitória do Senhor. Ele sabe que Deus "examina" e conhece o coração e a mente dos seus servos. Quer cantar e louvar ao Senhor, porque confia que "ele salva o pobre das mãos dos ímpios".

Será que o recurso à promessas passadas ajuda? Será que o relembrar a sã doutrina dissipa as nuvens escuras que se abatem sobre o profeta?

A resposta que Gideão dera ao anjo que o saudara, indica que o conhecimento das grandiosas obras do Senhor no passado pode potenciar a angústia! Ele disse: "Ah, Senhor, ... se o Senhor está conosco, por que aconteceu tudo isso? Onde estão todas as suas maravilhas que os nossos pais nos contam quando dizem: ‘Não foi o Senhor que nos tirou do Egito?' Mas agora o Senhor nos abandonou e nos entregou nas mãos de Midiã" (Jz 6.13).

Em Jeremias parece suceder o mesmo, pois, depois de lembrar as promessas que o Senhor lhe fez, ele 'vomitou' a amargura que corroía o seu ser. A raiva de Deus irrompe com toda a força:

14 "Maldito seja o dia em que eu nasci!
Jamais seja abençoado o dia em que minha mãe me deu à luz!
15  Maldito seja o homem que levou a notícia a meu pai,
e o deixou muito alegre, quando disse: 'Você é pai de um menino!'
16  Seja aquele homem como as cidades que o Senhor destruiu sem piedade.
Que ele ouça gritos de socorro pela manhã, e gritos de guerra ao meio-dia;
17  mas Deus não me matou no ventre materno nem fez da minha mãe o meu túmulo,
e tampouco a deixou permanentemente grávida.
18  Por que saí do ventre materno?
Só para ver dificuldades e tristezas, e terminar os meus dias na maior decepção?"

Não surpreende que os organizadores das perícopes preferiram omitir esta parte da oração de Jeremias. Ela é desconcertante, pois questiona nossos conceitos arrumadinhos da fé. Revela que, lá no fundo, cultivamos, todos, uma boa dose de teologia da prosperidade e da felicidade.

Mas Jeremias não podia optar por teologias politicamente correto como Hananias que prometeu paz ao despedaçar o jugo de madeira. Pelo contrário, Deus o constrangeu a repetir sua encenação do juízo com um jugo de ferro (Jr 28). Seu compromisso com o que o Senhor lhe ordenava apenas piorava suas dificuldades e tristezas, e aumentava sua decepção. Sem ver uma saída ele terminou sua oração com a pergunta: "Por que saí do ventre materno?"    

 

3 - Deus recebe o lixo da nossa alma

O que faremos com o desabafo que Jeremias compartilhou nesta oração?

Ele é tremendamente desconcertante, pois, de uma forma ou outra, todas igrejas ocidentais assimilaram a ideia de que seguir a Cristo redunda em felicidade e harmonia. Por séculos elas gozaram de respeitabilidade pública e suas lideranças, de posições privilegiadas. Este conforto teve seu preço, pois as igrejas tiveram que adequar-se aos regimes vigentes. Seus recortes da Palavra de Deus podiam variar, mas em todos percebe-se o empenho de torna-la politicamente correta e palatável a fim de evitar desconforto.

Esta era findou. As igrejas já não gozam mais do prestígio de outrora. Ainda bem, pois não foi para isto que Deus as chama. Como os servos no Antigo Testamento também os discípulos de Jesus são incumbidos de testemunhar a verdade de Deus em amor. À semelhança de Paulo também nos é "imposta a necessidade de pregar. Ai de mim (de nós) se não pregar o evangelho" (1Co 9.16)! Por isto quem atende ao chamado divino é exposto à mesma posição indefesa, vulnerável e sofrida do Mestre que disse:

"O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se o dono da casa foi chamado Belzebu, quanto mais os membros da sua família! ...  "Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. ...e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará. (Mt 10.24s; 34 e 38s.)

Jesus não deixou margem para dúvidas do que seus seguidores vivenciariam: "Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas". (Mt 10.16).

Por isto os sentimentos que Jeremias expressou não são estranhos a um discípulo. Faremos bem em aprender com o profeta que Deus quer e suporta ouvir aquilo que nos angustia e deprime. O Senhor sabe o que se passa dentro de nós e "do que precisamos" (Mt 6.8). Mesmo assim ele quer que "derramemos" diante dele a nossa alma (1Sm 1.15). Não precisamos ocultar-lhe que não somos imunes às adversidades que sofremos, nem usar máscaras piedosas diante dele. Pelo contrário, Deus atende a orações liturgicamente escandalosas. Podemos ser francos e despejar nossa decepções diante dele, pois nele elas não causam estrago algum. O Senhor não abandona seus servos feridos, mas os ouve e recolhe as suas lágrimas. Somente ele limpa-lhes o pus da alma. Pela experiência deste amor acolhedor Deus liberta do medo (1Jo 4.18) e capacita a perseverar:

"Portanto, não tenham medo deles. Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido. O que eu lhes digo na escuridão, falem à luz do dia; o que é sussurrado em seus ouvidos, proclamem dos telhados.  Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.   Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.  Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais!" (Mt 10.26-31)

Jesus não recomendou aos seus seguidores um consolo barato, mas partilhou o que o sustentou em seu ministério terreno. Em Jesus nós temos "um sumo-sacerdote que se compadece das nossas fraquezas, ... que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado" (Hb 4.15). Lucas descreve quanto pesou na alma dele beber o cálice amargo da hostilidade do mundo contra a Deus:

Ele se afastou deles a uma pequena distância, ajoelhou-se e começou a orar: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua". Apareceu-lhe então um anjo do céu que o fortalecia. Estando angustiado, ele orou ainda mais intensamente; e o seu suor era como gotas de sangue que caíam no chão. (22.41ss.)

Não temamos, pois, de entrar neste grupo de oração.



P. Martin Weingaertner
Curitiba/PR
E-Mail: weingaertner.martin@gmail.com

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