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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES , 20.09.2015

Predigt zu Jeremias 11:18-20, verfasst von João Artur Müller da Silva

Estimadas irmãs e irmãos da comunidade de Jesus Cristo, nosso Senhor!

 

            Estamos diante de uma confissão perante Deus. Estamos diante de uma situação pessoal de alguém que confia em Deus e por isso confessa. Pois para fazer uma confissão a pessoa precisa confiar naquele a quem vai derramar o seu coração, a quem vai confiar suas dúvidas, inquietações, perguntas, falhas, acertos, desacertos, enfim, confessar é abrir-se ao confessor.

            Estamos diante de uma confissão extraída de um diário íntimo, pessoal, que se revela hoje para nós, reunidos nesse culto. Mas de quem é essa confissão? Quem teria a coragem de revelar para outros o que se passa no seu interior, o que lhe move o coração, o que lhe causa sofrimento e dor, o que lhe traz preocupação? Quem tem tamanha confiança em Deus para dizer e gritar o que lhe está amargurando, o que lhe está trazendo problemas em sua vida? O que lhe está tirando o sono?

            Quem é que procura Deus para se confessar e ainda deixar registrada essa confissão num livro que muitas pessoas podem ter acesso? O texto bíblico que ouvimos no início dessa prédica é de autoria de Jeremias. E quem é Jeremias? Prontamente temos a resposta em nossa boca: Jeremias é profeta de Deus e que atuou, viveu nos tempos do Antigo Testamento.

            Quais sãos os motivos que levaram Jeremias a se confessar perante Deus? Quais são os motivos que levaram Jeremias a buscar Deus e diante dele dizer o que disse, e esperar de Deus uma reação, uma ajuda, uma orientação.

            Sabemos da história que Jeremias viveu num tempo bastante difícil e complicado na terra de Israel. Eram tempos de mudanças, de concentração de poder nas mãos de poucas pessoas, de cultos a deuses diferentes, de reformas na vida religiosa, de perseguição a quem pensava e agia contra o que estava sendo implantado naquela época. Eram tempos do rei Josias que estava promovendo mudanças que não sintonizavam com o que Israel tinha aceito quando fez a aliança com Deus.

            E nesta situação, Jeremias, um profeta, um mensageiro, um porta-voz de Deus que estava a serviço dele, sofria críticas, rejeição e perseguição e até mesmo ameaças de morte. Quem nesta situação não teria medo? Quem nesta situação não teria dúvidas sobre sua missão? Sobre seu agir? Quem não estaria inclinado a desistir de anunciar a vontade de Deus, as promessas de Deus, os mandamentos de Deus?

            Para compreender a confissão de Jeremias precisamos nos reportar à sua vocação. Lá no começo do livro do profeta Jeremias, lemos que Deus o havia escolhido “antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações.” (Jeremias 1.5) E para prosseguir no entendimento da atitude de Jeremias nesta confissão sobre a qual estamos refletindo, vamos recordar a reação de Jeremias a esta vocação, a esta escolha divina, a esta missão recebida de Deus: “Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança.” (Jeremias 1.6) E mais adiante vem a promessa que dá fundamento e solidez a essa confissão do profeta: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor.” (Jeremias 1.8)

            Aqui, na vocação de Jeremias para ser profeta de Deus nos mais diferentes lugares em Israel, reside a principal motivação para ele buscar a Deus e diante dele derramar o seu coração. Lembremos, estimadas irmãs e irmãos, que quando a vida aperta, quando estamos sofrendo com ameaças, quando tudo está saindo errado, é hora de buscar o auxílio e a orientação daquele que nos colocou a seu serviço. Jeremias reconhecia que precisava da ajuda de quem o tinha vocacionado e lembrou neste momento de sofrimento a promessa: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar.” Para afastar o medo, ele precisa confiar em Deus. E assim nós, hoje, estamos refletindo a partir da confiança de Jeremias em Deus e de sua confissão.

            E num passo seguinte, podemos nos achegar ao profeta Jeremias porque nós, como comunidade, como igreja, e também como pessoas cristãs, somos vocacionados ao serviço de Deus no lugar onde vivemos. Acredito que não precisamos elaborar uma pesquisa longa sobre nossa vocação. Basta cada uma, cada um de nós lembrar que Jesus, o Senhor da Igreja, nos qualificou como sal e luz no mundo, no lugar, na cidade, na comunidade, na sociedade em que estamos vivendo e atuando. Então, somos missionários, missionárias, mas também profetas, profetizas, mensageiros e mensageiras do Evangelho, da Boa-Nova de Deus para as pessoas, para as realidades nas quais nos encontramos.

            Quais são os aprendizados que podemos extrair da confissão de Jeremias a Deus? Que conteúdos para nossa vida de fé, para nossa vida comunitária e para nosso testemunho no mundo podemos aprender desta breve confissão de Jeremias?

Assim como o profeta Jeremias podemos oferecer nossa resistência à missão que Deus confia a nós. E com certeza alguma vez já o fizemos, quem sabe, sem nos dar-nos conta. Mas também como Jeremias, temos a promessa de Deus que ele estará ao nosso lado nos momentos em que temos vacilos, reclamações, medos e até indisposição de seguir com nossa missão. Podemos e devemos cultivar a confiança em Deus, aquele que nos revela sua vontade para que a vida nossa e das pessoas seja temperada com paz, amor, justiça, acolhimento...

Podemos ter dúvidas ao longo da caminhada que empreendemos como comunidade cristã, como Igreja de Jesus Cristo no Brasil, ou onde quer que estejamos como Igreja. Não é pecado, nem tampouco precisamos nos sentir culpados porque não sabemos bem como realizar a missão, a divulgação do Evangelho, a pregação da palavra de Deus numa realidade cheia de conflitos e contradições. Participar da missão de Deus é ser como Jeremias, ou seja, reconhecer que não somos “super cristãos”, mas sim, mulheres e homens que sentem medo, que não resistem às pressões, e que não querem sofrer nas mãos de gente que não aceita Deus, que não aceita o Evangelho.

Outro aprendizado que podemos ter com Jeremias é que podemos despejar tudo o que se passa com nossa vida, com nossa comunidade, com nossa igreja, com nossa ação diaconal, com nossas evangelizações, na presença do Senhor. Ah, como é bom ouvir de Jeremias que ele teve simultaneamente humildade e coragem de despejar tudo diante de quem o tinha vocacionado. Assim é o nosso Deus: ele nos chama, nos diz o que temos a fazer, nos compromete com sua missão neste mundo e não nos abandona! Isso faz um bem danado para a igreja em nossos dias. Isso é conforto e alento para as comunidades cristãs envolvidas e ativas em suas práticas diaconais e missionárias em tempos muito difíceis e complicados. As nossas realidades estão cheias de oposições e contradições que muitas vezes nos levam ao desânimo.

Também podemos aprender desta confissão de Jeremias a colocar nas mãos de Deus a vingança, o desejo de ser vingado. Não há sentimento mais humano do que querer vingar-se de alguém quando sofremos um dano, uma ameaça, uma perda, um prejuízo. Com Jeremias aprendemos que deixar a vingança na mão de Deus é abrir mão de ser juiz, e principalmente, de querer fazer justiça com as próprias mãos. Aliás, não faltam situações hoje noticiadas em nosso país de pessoas, e até grupos, que diante da inoperância do Estado, estão fazendo justiça com as próprias mãos quando conseguem pegar um assaltante ou um ladrão. Basta ler com atenção noticiários em jornais. É preciso aprender com Jeremias que não somos justiceiros, nem vingadores. Essa atribuição, por mais que a queiramos para nós, é atribuição do juiz divino, a saber, Deus, o Senhor da Humanidade. E aqui mais uma vez, transparece o valor da confiança em Deus. E essa atitude – confiar em Deus – é preciso ser cultivada entre nós, na comunidade, na igreja.

Além disso, também podemos aprender dessa confissão de Jeremias que quem briga com Deus, quem desabafa com Deus, quem reclama com Deus, está, na verdade, buscando orientação para sua vida. Quem briga com Deus está esperando um sentido maior para tudo aquilo que está despejando diante dele. E em confiança, como Jeremias, receberá de Deus essa resposta por caminhos a seguir, por orientação, por sentido para prosseguir na missão. Quando Jeremias experimentou a perseguição, as ameaças de morte, ele bem que poderia ter “jogado a toalha no ringue”, como costumamos dizer nestas ocasiões. Ou seja, desistir! Dar meia volta e seguir por outro caminho, render-se ao conformismo de que não foi capaz de suportar a dor, o sofrimento e assim abandonar o conflito vivido. E tem muita gente que diante dos problemas que surgem em sua vida e fé, em sua vida comunitária, abandonam a igreja, a comunidade e vão em busca de soluções, por exemplo, em crenças mais fáceis, como espiritismo, filosofias baratas do momento, ou até vão para religiões da prosperidade.

A confissão de Jeremias que ouvimos no começo da prédica é alento e orientação para nossa vida hoje, onde vivemos comunidade e igreja. Do profeta aprendemos ainda que estar a serviço de Deus não significa viver num “mar de rosas” como muitos apregoam quando querem definir missão, serviço, diaconia. Pois a vontade de Deus muitas vezes incomoda interesses e vontades de pessoas e grupos que estão à nossa volta. Quem já não ouviu em sua comunidade questionamentos sobre o envolvimento da igreja com pessoas na periferia das cidades, com pessoas empobrecidas, com pessoas portadoras de doenças como alcoolismo... Quem já não se confrontou com expressões como esta: “Por que a igreja tem que se meter nisso...?” “Por que a igreja tem que se envolver com os índios, os sem-terra...?” Quando surgem essas perguntas é porque alguém ou algum grupo está contra a missão de Deus, a missão que a comunidade de Jesus Cristo está comprometida a partir do mandamento divino.

Missão, testemunho, anúncio do Evangelho, prática do amor ao próximo, serviço cristão no mundo podem gerar situações de conflito, de briga, de desentendimentos, de resistências, e até de ameaças ao bem-estar da pessoa cristã, da comunidade, da igreja. Também hoje, também nos tempos atuais. Para nosso consolo e alento, podemos, assim como o profeta Jeremias o fez, nos achegar à presença de Deus e confessar tudo o que nos perturba, tudo que nos incomoda, tudo que nos amedronta para receber orientação, consolo, sentido e alento.

Que o bondoso Deus nos ajude no viver e atuar como seus filhos e filhas, como sua comunidade, no lugar em que estamos. Que o misericordioso Deus não nos abandone, mas mantenha abertos seus ouvidos para nossa confissão e súplica. Amém.



P. João Artur Müller da Silva
São Leopoldo
E-Mail: jocadasilva@hotmail.com

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