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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES, 08.11.2015

Predigt zu 1 Reis 17:8-16, verfasst von Roberto Zwetsch

 

Uma viúva estrangeira, uma criança e um profeta fugitivo:

A surpreendente narrativa dos milagres de Deus

Amigas e amigos do caminho do evangelho:

Que a graça do Deus vivo, o amor de Jesus nosso irmão e a força inspiradora do Espírito Santo sejam com vocês!

A narrativa que nos é oferecida hoje para meditar é surpreendente, inaudita, até parece impossível. E no entanto, emociona! Os escritores bíblicos que nos legaram a história possivelmente querem destacar duas coisas evidentes na leitura de 1 Reis:

a) há um conflito aberto entre o rei Acabe, a rainha Jezabel e os profetas que denunciam a opressão na terra de Israel, que vivia tempos de fome (17.1; 18.1ss). Há perseguição contra quem se opõe à dominação e ao desprezo pela fome do povo. O rei é tão vil que se preocupa antes em como alimentar os cavalos e as mulas das tropas de seu exército (18.5) do que garantir pão e água, o mínimo, para que o povo não morra de fome. Por trás deste conflito encontramos ainda duas visões opostas de quem é Deus e como ele age: ou ele é o Deus das chuvas que regam os campos onde trabalha o povo camponês e de onde os reis tiram o tributo, ou é o Deus que fala pelos profetas que denunciam a opressão dos grandes e age por meio de gente pequena e às vezes anônima;

b) no verso desse pano de fundo histórico, há a ação de Deus. Com quem ele se identifica? De que forma se manifesta numa situação tão trágica? Há morte rondando a vida de muita gente, especialmente do povo do campo, de quem planta a terra e precisa de água para viver e trabalhar. Há perseguição política contra quem denuncia os desmandos do poder estabelecido. Há gente fugindo para outras terras para sobreviver. Muitas vezes na história a migração não acontece livremente e por escolha das pessoas. As pessoas perdem tudo e migram simplesmente para sobreviver. E vemos famílias inteiras, crianças, jovens, pessoas idosas caminhando sem saber para onde, assumindo grandes riscos, como morrer no meio do caminho. Como Deus se manifesta em circunstâncias extremas como esta?

A narrativa de 1 Reis nos transporta para um momento histórico de grandes dificuldades de sobrevivência e no qual anunciar a palavra de Deus se torna algo muito arriscado. No início do capítulo 17, o profeta Elias, discípulo de Eliseu, anuncia diante do rei um tempo de seca terrível e em consequência tem de fugir. A palavra de Deus que ele ouve é clara: “Retira-te daqui, vai para a banda do oriente, e esconde-te junto à fonte de Querite, junto ao Jordão” (v.3). Lá ele terá o mínimo para comer e beber: “beberás da fonte e corvos te sustentarão”, disse o Senhor. A natureza tem seus segredos e na hora da necessidade até abutres podem tornar-se mensageiros de Deus. O profeta salvou-se por um tempo. Mas logo teve de sair daquele lugar, pois a água acabou, não chovia mais e viver ali se tornou muito perigoso. Quem sabe, só os abutres ficaram e então [...]. Nesse momento, o profeta recebe a estranha mensagem de que devia sair do país, de sua terra! O profeta perseguido deve migrar, se deseja salvar sua vida. E a direção é a terra de Sidom (Fenícia) para uma cidadezinha perdida naquelas terras secas. O profeta arrisca e vai como o Senhor lhe havia dito. É nessa fuga para salvar-se que ele se encontra com uma mulher surpreendentemente corajosa, na entrada de uma pequena cidade: Sarepta. Viúva da seca, preocupada em como garantir o mínimo para seu filho e talvez outras pessoas pobres que com ela viviam, esta mulher anônima é quem foi desafiada a garantir refúgio e alimento ao profeta de Deus.

A viúva de Sarepta! A indicação geográfica nos conduz ao estrangeiro. E mais ainda, nos coloca diante de uma situação inusitada e totalmente fora dos padrões de pureza e de contatos legítimos entre homens e mulheres para um judeu. Esta narrativa definitivamente nos desinstala, nos tira da segurança que nossa fé, nossa cultura, nosso padrão de vida burguês ou de classe média garante. Estamos diante do limite da vida. A vida das pessoas está por um fio! Como Deus se manifesta nesses momentos? Que palavra de Deus emerge quando a vida e a morte parecem tão próximas?

A narrativa nos leva a acreditar em milagres. Contra tudo e contra todos, Deus age. E ele age por meio de pessoas que sofrem, pessoas perseguidas, pessoas que aprenderam a duras penas que do pouco pode surgir o suficiente, para que a gente não morra, até que a situação melhore e se possa novamente respirar e festejar.

Aqui temos uma viúva, uma criança e um profeta fugitivo e faminto que pede ajuda justamente a quem menos tem. A pobre viúva, além de estar sozinha, se vê diante de um estranho, um estrangeiro que lhe pede água e depois ainda tem a coragem de lhe pedir pão, sem se perguntar se a pobre tem pão (João 4.6ss).

A resposta da mulher é de uma crueza que nos deixa envergonhados, principalmente se estamos convencidos de que o profeta é homem de Deus: “Tão certo como vive o Senhor teu Deus nada tenho cozido; há somente um punhado de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui, apanhei dois cavacos e vou prepará-lo para mim e para meu filho; depois vamos comer e morrer, [pois se acabou a comida]” (v.12).

É uma fala de um realismo que choca, fala sofrida, quase um lamento, um grito de desespero. Uma pobre mulher viúva, sem alguém que a pudesse proteger diante desse estrangeiro, e com um filho doente e fraco a ponto de morrer (v.17), não vê saída. Nesse momento terrível, um estranho lhe pede ajuda, precisa de água e pão para também sobreviver.

Que fazer? A mulher está sob um estresse enorme. Praticamente não tem saída. Ou faz o que o homem lhe pede ou pode morrer antes do tempo, pensa a mulher. Não sei se foi assim. Não é bom conjeturar. O fato é que a narrativa nos conduz para o âmbito da ação divina nos limites da vida e da morte. E ela acontece quase em segredo, numa perdida cidadezinha estrangeira, na casa de uma mulher pagã, pobre e praticamente à beira da morte.

A mulher prepara o pão com a pouca farinha que lhe sobra e o resto do azeite, mas primeiro serve ao estranho. O profeta Elias lhe diz: “faze primeiro para mim um bolo pequeno e traze-o aqui fora; depois farás para ti mesma e para teu filho” (v.13). Que coisa absurda! Suprema ironia, para não dizer desrespeito pela dor alheia. Um homem adulto e estrangeiro pede comida primeiro para si! Do que restar a mulher irá saciar a fome dela e da criança. Muito estranho. E no entanto, é desta forma que o profeta anuncia a palavra de Deus: “Assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da tua panela não se acabará, e o azeite da tua botija não faltará, até ao dia em que o Senhor fará chover sobre a terra” (v.14). Dá para acreditar?

A mulher apostou tudo nas palavras inspiradas de Elias, o desconhecido. Ela arriscou viver pela sem duvidar. Fez como Elias lhe pedira, como aliás procedem muitas pessoas quando se encontram no limite de suas forças e nada mais lhes resta. E o que aconteceu depois foi algo como um milagre inesperado e sem aviso: “assim comeram ele, ela e a sua casa (!) muitos dias” (v.15). Partilhar o pouco pode se tornar muito. Não se trata de pedir prosperidade, riqueza, muitos bens ao Deus vivo. Trata-se antes de apostar que partilhando o pouco que se tem, isto será suficiente para toda a família e ainda haverá mais para muitos dias. Até que a chuva venha e a vida melhore e seja mais tranquila. Enquanto isso, o desafio é viver do pouco e apostar que a faz a diferença. Que Deus se manifesta de forma surpreendente justo nos momentos em que menos contamos com sua graça e sua presença salvadora.

A narrativa bíblica continua dizendo que da panela a farinha não se acabou e da botija o azeite não faltou, como o Senhor prometera pela boca do estranho Elias. Deus não nos falta quando nós deixamos que ele nos abra os caminhos da vida, quando confiamos que sua palavra salvadora nos enche de coragem para crer e lutar. Mesmo quando nossos olhos humanos nada enxergam. Ainda quando o que temos parece só dar para alguns dias e então só resta esperar a morte que se avizinha, sorrateira e fatal.

A mulher ainda teve outro desgosto inimaginável. O menino, que ela cuidava com tanto carinho e por quem lutou até o fim, não resiste e morre. Elias, o homem de Deus, não se conforma. E luta com ela diante de seu Deus. Ele se isola no quarto do menino, deita sobre ele, ora com todas as suas forças e pede pela vida do menino. O menino revive! Elias – extenuado, ofegante, mas feliz – volta ao convívio daquela casa e entrega o menino a sua mãe e diz: “Vê, mulher, teu filho vive!”

Então a mulher pagã, que dera tudo o que tinha e arriscou a sua vida para salvar a vida do profeta, diz: “Reconheço agora que tu és homem de Deus, e que a palavra de Deus na tua boca é verdade”.

A palavra de Deus se manifesta verdadeira em meio à fome e à perseguição, na casa de uma pobre viúva pagã que se faz solidária num momento de extrema necessidade. A palavra de Deus se tornou verdadeira na boca do profeta, mas também se fez pão da salvação nas mãos dessa mulher de Deus. Ela não guardou para si a farinha e o azeite que se acabavam. Ela ousou repartir o que não tinha e recebeu muito mais do que esperava. Esta mulher é exemplo de fé e de ousadia ao acolher o estrangeiro. O profeta é exemplo de que a palavra de Deus é verdadeira quando se torna farinha, azeite e água da vida para pessoas famintas, sedentas, sem casa, sem terra, sem esperança.

Um poema do bispo emérito Dom Pedro Casaldáliga vem a calhar:

Onde há Pão

Ali está Deus [...].

A terra

é um prato

gigantesco

de arroz,

um Pão imenso e nosso

para a fome de Todos.

 

Deus viu a humildade daquela mulher (Lucas 1.46ss), esteve junto ao seu profeta perseguido e trouxe de volta à vida o menino enfermo (Marcos 5.35ss). Deus faz maravilhas entre os pobres! Longe das telas de TV, mas sempre junto a migrantes e pessoas desamparadas que lutam pela sobrevivência (Marcos 6.30ss). Se queremos seguir no caminho desse Deus, há que olhar com atenção para os movimentos da história presente e apostar justamente nessas pessoas que – aos olhos do mundo global – são descartáveis. Deus fará maravilhas entre essas pessoas e junto a quem arriscar solidarizar-se com elas. Que este Deus nos abençoe!

Pai nosso que estás nos céus [...]”. Amém.

 



P. Dr. Roberto Zwetsch
São Leopoldo - RS (Brasil)
E-Mail: rezwetsch@gmail.com

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