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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

5º DOMINGO NA QUARESMA, 13.03.2016

Predigt zu Isaías 43:16-21, verfasst von Wilfrid Buchweitz


Querida Comunidade:

     Nosso texto convida a nos transportarmos para uma situação longe daqui, muito tempo atrás, séculos de distância: Ali está um povo, toda a elite de um povo, o povo de Israel, preso num país estranho chamado Babilônia.  As pessoas deportadas perderam a pátria. Perderam seus bens. Foram separadas de familiares e amigos. Tiveram que conviver com outra língua, abrir mão de seus costumes, sua cultura e não puderam mais fazer suas orações e se reunir para seus cultos em seu templo em Jerusalém. De pessoas livres foram transformadas em servos e escravos. Tinham que plantar sem poder colher. Tinham que construir casas sem poder morar nelas. Uma situação degradante e de muito sofrimento. Podemos tentar entender, mas não vamos conseguir. Imaginar é uma coisa. Viver é bem outra.

     No meio deste quadro o texto mostra uma pessoa, não sabemos maiores detalhes sobre ela, que fala em nome de Deus e lembra ao povo de que séculos atrás já esteve preso e foi escravo em outro país, o Egito, e que Deus o tirou de lá. Para isso fez uma cousa inimaginável, abriu um caminho no meio do mar. As águas do Mar Vermelho abriram uma passagem, o povo de Israel pôde passar e continuar seu caminho em liberdade e para a liberdade porque o exército egípcio foi engolido pelas águas que se fecharam. É importante o povo lembrar isso. Mas ao mesmo tempo deve olhar para frente. Olhar para trás, mas também olhar para frente. O mesmo Deus do tempo do Egito agora diz que vai fazer “cousa nova”, e não vai demorar, já dá para enxergar. Deus vai abrir novos caminhos para o povo, mesmo que tenha que atravessar desertos. Abriu caminho através do mar. Também pode abrir caminhos através do deserto. E no meio dos dois olhares, para trás e para frente, o povo pode e deve olhar e viver sua situação atual. Olhar para trás e olhar para frente ajuda a viver a realidade do momento.

     E agora nós, pessoas e comunidade neste culto de hoje, somos convidados e desafiados a nos transportarmos com o texto de séculos atrás e sua mensagem de volta para nossos dias e nossa realidade. Leio no texto e entendo dele que povos e pessoas às vezes vivem em escravidão, vivem em “escravidões”. Israel experimentou a escravidão no Egito e na Babilônia. E leio no texto que Deus libertou Israel da escravidão no Egito e na Babilônia. Para isso abriu caminhos através do mar e do deserto. Deus consegue abrir caminhos através de mares e desertos, no sentido literal das palavras e também no sentido figurado destas palavras. Deus consegue abrir caminhos através de mares e desertos. E fez e faz isso em muitos lugares e situações. O texto cita o Mar Vermelho e os desertos daquela região. Mas Deus fez e faz isso em muito mais mares e desertos pelo mundo e por povos e por pessoas afora.Deus fez a maioria de nossos antepassados, membros da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – atravessar um mar enorme. E depois fez atravessar matas fechadas e inóspitas. É bem importante olharmos para trás, e olharmos para os lados. Mas o texto diz que não é bom olharmos para trás o tempo todo. É importante ouvirmos Deus e sua Palavra quando diz que ao mesmo tempo podemos e devemos olhar para frente. O fato de olharmos para trás pode nos ajudar a crer, a ter fé e confiança de que o Deus sempre faz “cousa nova”, vai fazer “cousa nova” e que em fé já dá para notar e ver sinais disso. Presos na escravidão. Presos em escravidões, muitos tipos. Libertados da escravidão. Libertados por Deus e sua Palavra e pelos Sacramentos do Batismo e da Santa Ceia de escravidões, muitos tipos.

     De quem ou de que nós somos escravos? Sou, eu, escravo? Somos, nós, escravos? Hoje? No Brasil?

     Penso em dois níveis. E menciono por primeiro o ambiente maior, o país. Nosso Brasil não é escravo de nenhum outro país, ao menos não diretamente, como Israel foi escravo do Egito e da Babilônia. Mas às vezes países se escravizam a si mesmos. Pessoas de um país escravizam outras pessoas do mesmo país. Pessoas são escravizadas pela corrupção, tanto a nível público como privado. Pessoas são dominadas pela violência a ponto de terem medo de sair de casa. Pessoas são escravizadas pela pobreza que tão cruelmente limita a vida. Outras pessoas são escravizadas pela riqueza. Querem ganhar e ganhar e não se importam com a maneira de conseguir isso. Pessoas são escravizadas pela falta de educação e isso não permite uma vida digna. Assim em inúmeras áreas nosso país se escraviza a si mesmo. Nosso país vive um momento e uma situação de muito sofrimento. É importante nos darmos conta disso, mesmo que uma pessoa só não possa fazer muito. Eu sozinho não posso fazer muita coisa. Mas também não preciso cruzar os braços e só ficar reclamando e lamentando. É preciso amar nosso país. Posso me juntar a algum grupo que se engaja unido. Há muitos grupos voluntários que se engajamem causas importantes e prestam serviços valiosos, inclusive nossa Comunidade. Queremos e devemos compartilhar o amor que Deus nos dá, dentro e fora da Comunidade. Tenho também o recurso de avaliar muito bem em quem eu voto e posso cobrar os serviços. E, claro, eu incluo meu país querido em minhas orações. Deus é Senhor também deste meu país que tanto se escraviza a si mesmo e Deus pode, como no Egito e na Babilônia, fazer “coisas novas”. Será que lemos jornal demais e olhamos televisão demais?  Será que lemos Bíblia de menos? Nossa Bíblia tem inúmeros textos parecidos com o de Isaías 43.16-21 de hoje. Se jornais e TV nos revoltam e deprimem e despertam muito ódio nos corações, nossa Bíblia é capaz de restabelecer nosso equilíbrio quando faz Deus dizer: “Eis que faço cousa nova, que está saindo à luz; porventura não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo” (v. 19). 

     Em segundo lugar penso no ambiente menor em que transito todos os dias e que está próximo de mim. Ali às vezes eu estou preso a mim mesmo. Sou escravo de mim mesmo. Muitas pessoas são escravas delas mesmas. Será que todas as pessoas, todos nós, às vezes são escravas delas mesmas? Às vezes eu me considero o tal, melhor que todas as outras pessoas. Outras vezes me considero um lixo, pior que todas as outras pessoas. Às vezes convivo muito mal com minha esposa e minhas filhas. Às vezes sou um mau parceiro com meus e minhas colegas. Sou egoísta. Deixo a inveja tomar conta, um espírito de raiva, indiferença, omissão. Torno-me destrutivo em vez de construir. Rejeito em vez de amar. Acontece isso conosco? 

     Mas, se no ambiente maior, no país Brasil parece que não posso fazer muita coisa, porque é muito grande, muito complexo, muito distante, a nível pessoal, no meu dia a dia, na minha família, comunidade e trabalho, eu posso fazer coisas. Posso ler e ouvir a Palavra de Deus e ela me diz, sempre, que Deus me ama. E ela me incentiva a olhar para trás e constatar, por exemplo, que eu nasci, nós nascemos, recebemos a vida de presente. Aí me lembro que fui batizado e Deus me deu Vida em comunhão com Ele e com pessoas e cada vez mais também com a natureza. E posso fazer uma lista grande de sinais de que Deus esteve presente em minha vida. Disse, com Palavras e ações que me ama. Mas também me disse que sou pecador, sou egoísta, e pude me arrepender e pedir perdão e voltar ao caminho em que Ele me colocou e em que eu tinha concordado em andar pela vida afora. Com isso experimentei mil vezes na minha vida a libertação de minha escravidão. Todos e todas nós assim pudemos e podemos experimentar mil vezes em nossa vida a libertação da escravidão. A comunidade cristã experimenta mil vezes a superação da escravidão dela. Pude, pudemos, não querer ser nem mais nem menos que outras pessoas. Pude, pudemos, experimentara beleza de uma comunhão verdadeiramente fraterna com pessoas irmãs e amigas. E, como no texto de hoje, pude ouvir inúmeras vezes que, além de olhar para trás, posso olhar para frentee ouvir “Eis que faço cousa nova, que está saindo à luz; porventura não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo” (v. 19). Posso confirmar que Deus sempre de novo fez cousa nova em minha vida e eu sei, em fé, que vai continuar fazendo cousa nova até o fim da minha vida.

     Estamos lendo e ouvindo este texto de Isaías na época da Quaresma, tempo em que seguimos, semana após semana, domingo após domingo, os passos de Jesus em direção à cruz na Sexta-feira Santa. É uma oportunidade de libertação da escravidão, de escravidões, a nível maior de país e a nível mais próximo, na vida pessoal e comunitária. E já dá para espiar a Páscoa, que é a festa da superação definitiva de qualquer tipo de escravidão e de liberdade plena no reino de Deus. Amém




P.em. Wilfrid Buchweitz
São Leopoldo – RS, Brasil
E-Mail: wbuchweitz@gmail.com

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