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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

6º DOMINGO DA PÁSCOA, 01.05.2016

Deus trabalha, à gente cabe cultivar e guardar.
Predigt zu Gênesis 2:7-17, verfasst von Hans A. Trein

 
Querida Comunidade de Cristo,

O mundo é fantástico. É um organismo vivo que se regula a si mesmo. Nossa fé compreende Deus como princípio de tudo. A ciência e suas teorias ao longo dos séculos nos ajudam a entender que o mundo surgiu dentro de uma grande explosão cósmica, que o universo inteiro se encontra em fuga, e que a vida das diferentes espécies evoluiu do protozoário até o ser humano, da forma unicelular de vida até a espécie mais sofisticada e evoluída de humanidade. E a nossa fé diz que essa perfeição toda não é fruto do acaso. Tudo é criação de Deus. Na verdade, somos lembrados, nesse Dia do Trabalho, que o verdadeiro trabalho criador não é humano, mas é divino. Nós, as criaturas humanas junto com os outros seres vivos, somos apenas transformadores do que já está criado. ‘Nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma’.

Mas, então, como qualificar a atividade humana, se a fé nos diz que trabalho de verdade foi e é Deus quem realiza. O versículo 15 nos dá a resposta, ‘cultivar e guardar’ essa boa criação paradisíaca, uma atividade leve, quase um hobby, como cuidar de um jardim. Essa atividade ainda não tem nada da concepção de castigo implícita na sentença da expulsão do paraíso, “no suor do teu rosto, comerás o teu pão”. Essa atividade obrigada, exaustiva, expropriada é resultado do pecado, não do pecado moral do indivíduo, mas do pecado sistêmico que se evidenciou na escravidão e na exploração do trabalho humano.

Embora no Brasil ainda existam muitos lugares, onde a escravidão está ativa, de modo geral a escravidão está superada. Mesmo assim, ainda tem muito do “viver para trabalhar e não do trabalhar para viver”. O trabalho está mal distribuído. Enquanto uma grande massa trabalha demais, uma minoria trabalha de menos, e mais do que isso, vive regaladamente do trabalho de outros. Embora ela mesma não trabalhe, essa classe faz questão de enfatizar que o trabalho dignifica o homem, para que ninguém questione a sua própria exploração. Desde o tempo dos trabalhos forçados, da escravidão, o chicote de couro e pontas de metal foi substituído pela vara da ideologia dominante do trabalho, mas o resultado que se quer alcançar é o mesmo: muitos têm de literalmente gastar a sua vida no trabalho, levantar às 4 da madrugada e voltar às 10 da noite, sem vida familiar ou qualquer lazer, para que poucos possam viver na boa, embora em grande parte também nem tão felizes. E, para que esse sistema injusto não apareça com toda clareza, ainda tem um certo número de pessoas que podem escolher o seu volume de trabalho, como e quando querem trabalhar.

Isso me lembra da colocação de Santiago Guarani, dizendo que “tem pena dos brancos, porque se matam trabalhando e têm muitas preocupações, ao invés de prestarem atenção nas coisas essenciais da vida e confiarem na criação de Deus que alimenta essa geração e, em sendo bem cuidada, também as próximas”. Essa fala revela uma inabalável fé no Deus Criador e Mantenedor de toda a vida, da qual nós cristãos podemos aprender muito. Aliás, essa leveza de cultivar e guardar se encontra em quase todas as culturas indígenas. O trabalho é um meio, cuja finalidade é o bem viver. O trabalho na verdade parece uma grande brincadeira, não pesa sobre ele a obrigação de produzir excedentes de que se apropriam alguns poucos espertinhos. Recolhendo lenha, colhendo frutos e raízes, caçando, pescando ou semeando milho, mandioca, batata doce... as pessoas brincam entre si, contam causos e piadas, tudo parece mais uma festa comunitária, do que propriamente trabalho, como nós nos acostumamos a pensar.

É claro que atualmente chegamos a um nível populacional no mundo, em que não é mais possível todos viverem dessa forma despreocupada e extrativista. É necessário produzir, e muito. Não apenas materialmente, mas também intelectualmente. E aí temos mais uma distinção ainda não bem resolvida: em nosso sistema o trabalho manual está desvalorizado em comparação ao trabalho intelectual. O apóstolo Paulo não quer ser um peso para as famílias, às quais leva o evangelho e que vivem do trabalho manual. Por isso, ele mesmo e seus colaboradores trabalham manualmente, dignificando o trabalho manual.

Mas, onde fica o valor e a riqueza da produção excedente? O problema fundamental é de distribuição dos resultados do trabalho humano. Se não é mais possível vivermos todos como os povos indígenas, pelo menos aprendamos deles a ‘trabalhar para viver e não viver para trabalhar’. Isso, porque nós humanos não somos pequenos deuses criadores.

O progresso tecnológico, o eletrônico e informático, o genético e biológico dos últimos anos, nos ilude com a presunção de podermos tudo. Mas, não devemos tudo o que podemos, pois não deixamos de ser criaturas que no fundo não sabem distinguir definitivamente entre bem e mal. Somos criaturas ao lado de outras muitas criaturas; não estamos fora ou acima desse mundo, mas dentro dele e intrinsecamente vinculados a ele; não sobreviveremos sem ele, e recebemos, segundo a nossa fé, a incumbência de cultivar e guardar, cuidar dessa maravilha de criação; não permitamos que a ganância e a injustiça a possam destruir ou mesmo criar a situação de que o mundo continue existindo, mas sem a nossa espécie humana.

A nossa condição de criaturas está substancialmente ligada ao restante da criação, especialmente à própria terra cultivável. A terra é o organismo vivo que fornece a matéria prima para formar os humanos e fazer brotar toda sorte de árvores, inclusive a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Duas palavras no original hebraico, adamah e adam, merecem atenção especial. Significam húmus e humano. É uma pena que as diversas traduções bíblicas ao português não permitam essa

associação, porque falam em solo, em pó da terra, em argila do solo. Nenhuma utiliza a palavra húmus.

A terra da qual Deus formou o humano, não é qualquer tipo de solo, é terra agricultável, terra de plantio, aqueles 12 a 15 cm de solo fértil e vivo que chamamos de húmus. Um punhado desse húmus contém bilhões de microscópicos seres vivos. Os humanos, portanto, são partes dessa camada de húmus animados pelo sopro de Deus. O vínculo linguístico aqui é fundamental. Assim como Adam tem uma relação imediata com a adamah, os humanos têm uma relação direta com o húmus. Para permanecer humano, essa relação não pode ser perturbada e muito menos interrompida. O humano é o próprio húmus que anda, que sente, que pensa e que ama. O vínculo com o sopro de Deus lhe atribui a função de elo de ligação entre Deus e terra. Esse vínculo de terra e sopro divino constitui a humanidade. Quando Deus busca de volta o sopro de vida concedido, o humano volta a ser húmus. “Terra à terra, cinza a cinza, pó ao pó. Da terra foste formado, à terra tornarás”... Tanto me parece belo quanto consolador, estar integrado no ciclo da vida dessa forma, estando animado pelo sopro divino.

Em Gn 2.19 também os animais são formados do mesmo material que os humanos. Assim, os indígenas entendem que o nosso vínculo com os animais é a humanidade e não a animalidade. Em Eclesiastes 3 nos surpreendemos com a seguinte afirmação: 19 “Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais, porque tudo é vaidade. 20 Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. 21 Quem sabe que o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra?”

Ou seja, toda a vida humana, vegetal (brotam da terra) e animal tem o seu vínculo existencial com a terra. A ameaça ou agressão a qualquer manifestação da vida também fere a terra. A terra abre a sua boca para receber o sangue de indígenas, escravos, Abéis de todos os tempos, declarados não-pessoas, invisibilizados (Gn 4.11). Aliás, essa ligação intrínseca entre terra e as criaturas permeia praticamente todas as mitologias indígenas e tem uma implicação e consequência essencial para o nosso trabalho.

Ao longo da história, o trabalho foi um espaço de realização humana, mas também de sujeição e exploração. No exílio babilônico se formula o primeiro relato da criação, organizando as obras de Deus pelos dias da semana e acentuando o descanso no shabbat. Se até Deus descansou, os seres humanos também têm direito ao descanso!

Esse certamente foi um grande ganho civilizatório, não apenas para oportunizar a recuperação da força de trabalho, mas também como uma confissão de fé: a manutenção da criação de Deus não depende do nosso trabalho! A criação de Deus é tão bem feita que ela pode muito bem viver sem a intervenção do trabalho humano. Por isso, trabalhar durante o shabbat chegou a ser considerado uma blasfêmia, ou seja, uma forma de negar a autossuficiência da criação de Deus.

Resumindo: “Quando chegamos, a terra já estava aqui. Quando todos partirmos, a terra seguirá aqui também. O húmus que pisamos é formado do pó dos 60 bilhões de pessoas e de todos os animais que já viveram nesse planeta. O pó de nossos antepassados merece o nosso respeito, o nosso cultivo e cuidado. Tudo retorna àterra e a terra sobreviverá ainda por muito tempo quando nós também voltarmos a ser pó.”

O trabalho criativo é de Deus. Aos humanos resta cultivar e guardar. O trabalho forçado é desgraça e conduz à desgraça. Para que os humanos não pensem de si mais do que devem, nada há do que descobriram, inventaram ou ainda venham a descobrir que já não tivesse sido criado antes. No verso 15 a palavra hebraica traduzida por cultivar é abad=trabalhar. Esse é, portanto, o trabalho humano: cultivar e guardar como bons mordomos da criação de Deus. Esse cultivar e guardar, leve, promotor de vida é que corresponde ao mandato recebido de Deus.

Que Deus Todo-Amoroso nos ajude com o Seu Espírito Santo, para que possamos mais e mais corresponder a esse mandato de cultivar e guardar. Celebremos esse bem viver nesse dia do trabalho. Nele está a promessa de vida equilibrada e sustentável. Amém.

 



P.Me. Hans A. Trein
São Leopoldo – RS (Brasil)
E-Mail: hansatrein@gmail.com

Bemerkung:
Textos de Leitura - Marcos 2.23-28 e 1 Tessalonicenses 2.3-12


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