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ISSN 2195-3171





Göttinger Predigten im Internet hg. von U. Nembach

5º Domingo na Quaresma, 09.03.2008

Predigt zu Ezequiel 37:1-14, verfasst von Manfredo Siegle

  

Irmãos e irmãs no Senhor Jesus Cristo:

No final do mês de fevereiro, os dias foram de limpeza em muitas áreas na cidade de Joinville, Santa Catarina, a cidade onde vivo e trabalho. Acontece que as águas provocadas por chuvas, em excesso, invadiram ruas, lojas, fábricas e inúmeras casas. Na cidade boiavam os sacos de lixo misturados a objetos e móveis estragados; não faltaram os cacos, assim como os galhos secos e frágeis, levados pela fúria do vento e pelo peso das águas da chuva. Foram milhares as folhas que entupiram as bocas de lobo. Em grandes áreas da cidade manifestou-se o caos. As manchetes num dos Jornais da cidade diziam: - Seca, tornados, cheias... É tudo culpa de La Niña que se caracteriza pelo resfriamento das águas do oceano Pacífico. Complementam os metereologistas que "os fenômenos que atingiram a cidade não são normais, mas também não representam o fim do mundo".

Cacos, lixo, dejetos estragados, pessoas ao relento, a falta de dignidade, vidas despedaçadas, situação de ruínas, gente angustiada, inconformada... São estes fenômenos e fatos à semelhança dos galhos secos, os quais evocam a nossa memória e lembram da realidade da história humana. Trata-se de uma longa história, que remonta ao passado longínquo.

O texto bíblico, neste 5º domingo da Quaresma, tem o sofrimento e a opressão como ponto de partida. O profeta Ezequiel nos leva ao "vale dos ossos secos", o vale dos ossos secos do exílio na Babilônia. Entre o povo deportado e disperso, há cacos presentes em muitas partes. Jerusalém, a cidade santa, o lugar do templo, símbolo da unidade do povo de Deus, Israel, está caída, em ruínas. O templo está destruído; não sobrou pedra sobre pedra. Um número significativo do povo foi dizimado, por causa da peste, ou devido à fome, ou porque eram vítimas, nas mãos dos soldados inimigos vencedores, provenientes do reino norte, a Babilônia. O povo cativo misturava-se às gentes que viviam na dispersão e sem rumo. O caminho da desgraça gerou confusão e desencontro.  As vozes proféticas foram intensas apontando à idolatria e à hipocrisia das autoridades, tanto religiosas, como do poder público.

Em meio ao caos instalado, não faltaram os homens chamados pelo Deus da liberdade, Senhor da justiça, alertando para a exploração da classe de pessoas influentes e dominantes. A realidade vivida por Israel, povo eleito indicava ao "fundo do poço", conduzia a um "túnel escuro", sem perspectiva de luz na sua saída. Esse ambiente amargo somente podia produzir reações de lamentos e de queixas; lamentações contra Deus, contra os seus porta-vozes, aqueles que se colocaram à disposição de Deus para anunciar a sua vontade e que, ao mesmo tempo, lembravam das benignidades (Salmo 25.6) do Deus-Javé, o Senhor único e verdadeiro! A experiência da derrota e o sentimento da inutilidade produziram uma história estranha, a história do "vale dos ossos secos". O povo de Deus, a "menina dos seus olhos", povo escolhido para ser "luz entre as nações" ficou reduzido à triste realidade dos ossos secos, e o seu lugar de vida nos conduz a um vale deserto, cuja situação era de sequidão e desespero.

E Deus, o autor da libertação, fiel companheiro de jornada, enquanto caminhava em meio ao deserto, doador da Terra da Promessa, não está conformado. Seus olhos não estão alheios à realidade da sequidão e da realidade dos esqueletos no vale seco. No contexto de fragilidade do povo derrotado, a mão graciosa de Deus toca o profeta. A pergunta do profeta não poderia ser outra: "Poderão reviver estes ossos?" Ora, claro que não! Esqueleto é esqueleto. "Como pode entrar vida nova em esqueleto seco"?

Sair do fundo do poço e devolver vida nessa paisagem de ossos secos, porém, não podia ser obra humana; isto é obra do Espírito, um milagre de Deus mesmo. A perspectiva de um novo e bom futuro para o povo de Deus é expressão gratuita do amor e da misericórdia do Deus, o Bom Pastor, capaz de libertá-lo do vale das lágrimas. Assim é Deus que pode conduzir Israel aos campos verdejantes.

A realidade no mundo atual confronta, a cada novo dia, com ossadas nos vales obscuros de lágrimas e de injustiças, razão de queixas revoltosas e de desesperança. Há muita gente por aí que, neste tempo de Quaresma, época de lembrança da paixão de Jesus Cristo, diante da cruz de Gólgota questiona, revelando desânimo: "mas onde está Deus"? Cadê Jesus? São incontáveis as pessoas humanas que nos momentos angustiantes e de sofrimento se identificam com o grito de Jesus e perguntam: "Pai meu, Pai meu, por que nos desamparaste"? Existem milhões de brasileiros, à margem da nova realidade, amplamente divulgada nesses dias informando que o país, até então, uma das nações devedoras, passou a administrar uma das economias privilegiadas, tornando-se um país emergente credor. O desânimo de uma larga faixa de pessoas cidadãs em nosso país, jovens e velhos, sem perspectiva de emprego e de futuro equilibrado, impede que sejamos os embaixadores de uma mensagem superficial de esperança. As notícias dos escândalos financeiros, da corrupção legalizada, conhecida ou encoberta, tudo isto somado à má administração dos bens e do dinheiro público, impedem que "a paz e a justiça se beijem" e andem de mãos dadas.

Persiste a dificuldade de escolhermos homens públicos comprometidos com a ética do Evangelho, em favor da vida em abundância. A ausência da justiça social, da liberdade, da solidariedade e da verdade continua empurrando incontáveis pessoas à marginalidade, à violência, desterrando-as no "vale dos ossos secos".

Disse-me o Senhor: "Profetiza a estes ossos e dize-lhes: ossos secos, ouvi a palavra do Senhor: Eis que farei entrar o espírito em vós e vivereis". E continua o profeta Ezequiel: "Profetizei como o Senhor me ordenara e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé, um exército sobremodo numeroso".

O resgate da vida nova não é possibilidade humana. Irromper nas trevas da humanidade, levar vida nova ao vale dos ossos secos é iniciativa da Palavra de Deus; o descortinar de um novo horizonte é fruto da Boa Notícia, sinal da solidariedade divina. É Deus mesmo quem "põe de pé" os sofridos e desalentados. É Ele que devolve dignidade e esperança às pessoas despedaçadas. Podem ser pequenas e grandes as esperanças que servem de alimento a caminho. Ezequiel, o profeta, anuncia que a transformação dos ossos secos em vida nova tem dimensões comunitárias; todas as pessoas são beneficiadas mediante a força da palavra de Deus, semente de esperança, motivo para a re-criação!

É impossível prender a esperança a lugares inacessíveis. Os gregos pensavam que se podia prender a esperança no fundo de um barril. No tempo da Quaresma, somos confrontados com a Boa Notícia: desde que foi erguida a cruz em Gólgota, e nela pregado o Messias de Deus, vale a pena viver e anunciar esperança para todas as pessoas. É no acontecimento da cruz que se manifesta a miséria humana, mas ao mesmo tempo mostra o grande amor de Deus para com todas as suas criaturas e todas as criações.

Por causa da paixão e morte de Cristo e em razão da vitória de Deus sobre os poderes da morte, na Páscoa, a semente da esperança faz parte da vida de cada pessoa. Na angústia e nas dores, Deus está com todas as pessoas; dos seus corações faz nascer esperança, consolo e coragem. A humanidade toda tem a liberdade de receber, pela fé, a salvação como oferta de Deus! De Gólgota e da sepultura vazia brotam águas vivas, delas flui esperança, ao invés de cacos e dejetos sem vida; são fontes de água que transportam o desejo de viver e oferecem forças para lutar para que a vida abundante permaneça.

O milagre de Deus é visível, o aperitivo do novo futuro é motivo de celebração. Os vales dos ossos secos continuam existindo; as sepulturas continuam testemunhando o poder da morte. O projeto de vida inaugurado em Jesus Cristo inspira para uma nova ordem. Vida e de esperança são obra de Deus e promessa às pessoas cidadãs do seu Reino! O cultivo da esperança é mandato de Jesus Cristo e rompe com a cultura da violência, da discriminação, do medo e "derruba dos tronos" a quem investe na realidade do vale dos ossos secos.

                                                                                           AMÉM. 

 

 



Pastor Sinodal Manfredo Siegle
Joinville
SC - Brasil


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