{"id":10203,"date":"2004-11-07T19:49:13","date_gmt":"2004-11-07T18:49:13","guid":{"rendered":"https:\/\/theologie.whp.uzh.ch\/apps\/gpi\/?p=10203"},"modified":"2025-05-12T11:05:02","modified_gmt":"2025-05-12T09:05:02","slug":"mateus-211-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.theologie.uzh.ch\/apps\/gpi\/mateus-211-11\/","title":{"rendered":"Mateus 21:1-11"},"content":{"rendered":"<div align=\"left\">\n<div>\n<h3>1\u00b0 Domingo de Advento | 28 de Novembro de 2004 | Mateus 21:1-11 | Paulo P. Weirich |<\/h3>\n<p>Hosana ao Filho de Davi!<\/p>\n<p><strong>Com os anjo e arcanjos e com toda a companhia celeste louvamos e magnificamos o teu glorioso nome, exaltando-te sempre, dizendo: \u201cSanto, santo, santo, bendito, hosana! (Da liturgia da Santa Ceia)<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Uma e outra vez somos envolvidos por multid\u00f5es em festa. Emo\u00e7\u00f5es incendiadas pelo fogo do entusiasmo s\u00e3o incontrol\u00e1veis no seu poder de cont\u00e1gio. Os aplausos numa \u00f3pera bem apresentada, a vibra\u00e7\u00e3o no est\u00e1dio esportivo, e tantos outros momentos marcam a pessoa. Assim como marcados ficaram os disc\u00edpulos de Jesus nesse dia. Assim como a igreja toda em todos os tempos que trouxe esse epis\u00f3dio da chamada entrada triunfal de Jesus em Jerusal\u00e9m para marcar dois domingos no ano eclesi\u00e1stico: Ramos e Advento.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, n\u00e3o importam as motiva\u00e7\u00f5es que contagiaram a multid\u00e3o nesse dia. Importa mesmo \u00e9 que Jesus, aquele homem de Nazar\u00e9, foi dignamente festejado como cada crist\u00e3o sente que gostaria de faz\u00ea-lo. A narrativa nos convida a juntarmos as vozes \u00e0 multid\u00e3o na exalta\u00e7\u00e3o daquele que veio, que vem e que vir\u00e1.<\/p>\n<p>Que multid\u00e3o \u00e9 essa? Ser\u00e1 ela diferente de tantas multid\u00f5es que j\u00e1 conhecemos ao longo da hist\u00f3ria? Multid\u00f5es \u00e0 beira do caminho reunidas pela esperan\u00e7a de que finalmente o seu destino se realizaria, suas esperan\u00e7as mais leg\u00edtimas sendo contempladas, seus anseios finalmente tornados realidade.<\/p>\n<p>Conhecemos bem essa multid\u00e3o. Talvez n\u00e3o a tenhamos visto gritando \u00e0 beira do caminho. Mas certamente reconhecemos as esperan\u00e7as e anseios que se refletem nos seus gestos de frustra\u00e7\u00e3o, de revolta, de desalento. S\u00e3o as esperan\u00e7as e anseios que tamb\u00e9m marcam a nossa pr\u00f3pria caminhada nesse mesmo caminho. Olhamos para o lado ou n\u00e3o olhamos. Mas certamente identificamos os gestos ansiosos, \u00e0s vezes nervosos, o torcer das m\u00e3os, o descair dos ombros, o bra\u00e7o estendido em busca de respostas intang\u00edveis.<\/p>\n<p>Jesus segue por esse caminho sem mostrar em momento algum qualquer contrariedade. Sim, porque a multid\u00e3o sabe bem o que espera dele. Com que euforia receberam dele os p\u00e3es e os peixes. Com que entusiasmo relatavam vezes sem conta a recente ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro. As hist\u00f3rias se multiplicavam, aumentando a expectativa que agora explode num entusiasmo sem limites. A multid\u00e3o n\u00e3o lembra as palavras que desviam dessa sua expectativa: \u201cOlhai os l\u00edrios do campo e as aves do c\u00e9u. Procurem tesouros onde a tra\u00e7a e a ferrugem n\u00e3o corroem\u201d<\/p>\n<p>Expectativas vazias e in\u00fateis povoam o imagin\u00e1rio das multid\u00f5es que correm atr\u00e1s de promessas. Mais triste ainda \u00e9 o estado das multid\u00f5es que j\u00e1 nada esperam, que desacreditaram de tudo, que olham para o caminho percorrido pela humanidade com a desilus\u00e3o.<\/p>\n<p>As motiva\u00e7\u00f5es e anseios que s\u00e3o o conte\u00fado do canto da multid\u00e3o s\u00e3o totalmente equivocados, como equivocado estava Pedro quando tentou demover Jesus da id\u00e9ia do sofrimento e do sacrif\u00edcio. Felizmente, o conte\u00fado e significado daquele canto e daquele entusiasmo n\u00e3o pertence \u00e0quela multid\u00e3o. O que tamb\u00e9m poder\u00edamos ou at\u00e9 devemos confessar do nosso pr\u00f3prio canto e das nossas ora\u00e7\u00f5es que se elevam ao trono de Deus. \u201cN\u00e3o sabeis pedir\u201d, dissera Jesus aos seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>O que importa, e sempre ser\u00e1 assim, \u00e9 saber que o conte\u00fado do nosso canto e do nosso louvor est\u00e1 na pessoa daquele que entra humilde em Jerusal\u00e9m. Aquela multid\u00e3o saber\u00e1 mais tarde o verdadeiro conte\u00fado e sentido daquele seu canto: Hosana! Bendito! A qualidade do Hosana n\u00e3o se afirma pela qualidade do canto ou da pessoa que canta, nem do que ela compreende do seu canto. A qualidade e o valor do canto est\u00e1 na pessoa para quem se canta. E naquele dia as pessoas cantaram para Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Quando a multid\u00e3o de curiosos que vinham chegando perguntavam: Mas, para quem estamos cantando? A resposta vinha: \u201cJesus, de Nazar\u00e9.\u201d (v.11) Quantos ainda tinham d\u00favidas, apesar de tudo que dele se dizia? \u201cDe Nazar\u00e9 pode sair alguma coisa boa?\u201d perguntara Natanael. (Jo\u00e3o 1.46) Mesmo tendo sido despertados pelos sinais e curas, a d\u00favida quanto \u00e0 pessoa de Jesus continuava no ar. Quem \u00e9 ele?<\/p>\n<p>\u00c9 um povo em busca de salva\u00e7\u00e3o. Cantam as palavras certas para a pessoa certa: O Filho de Deus. Mas, muito provavelmente, desconhecem a pessoa e o canto. Entretanto, Jesus segue, no ritmo do animal que monta, a marcha sem retorno para que aquela multid\u00e3o possa usufruir muito mais do que aquilo que entendem e cantam. Deles \u00e9 o Reino. Ele \u00e9 Senhor do destino de cada um como Cordeiro de Deus. Todos v\u00e3o ser chamados a crer nele, numa reviravolta de expectativas jamais esperada pela multid\u00e3o.<\/p>\n<p>O olhar de Jesus sobre a multid\u00e3o n\u00e3o se modificou desde aquele dia em os viu \u201ccomo ovelhas sem pastor\u201d. Compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia s\u00e3o o que impelem Jesus a prosseguir. Ao mesmo tempo, seu cora\u00e7\u00e3o se alegra com o canto, porque esse mesmo canto ser\u00e1 mantido pela sua igreja ao longo dos tempos pontuando a marcha dos peregrinos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 outra Jerusal\u00e9m. Ao longo dos tempos a igreja levantou os olhos da f\u00e9 para o altar, onde na simplicidade do p\u00e3o e do vinho, viu mais do que sua compreens\u00e3o \u00e9 capaz de absorver e compreender. Viu a oferta preciosa de Deus vindo ao seu encontro na pessoa deste Cordeiro que se oferece e ao seu povo e marcha com o seu povo na dire\u00e7\u00e3o da realidade preparada pela miseric\u00f3rdia eterna.<\/p>\n<p>Ao nos aproximarmos do altar entoando os Hosanas e os Benditos somos a igreja de todos os tempos que olha para a Jerusal\u00e9m tanto da da cruz e da gra\u00e7a como a Jerusal\u00e9m do trono da gl\u00f3ria em Cristo.<\/p>\n<p>Jesus ouve o louvor imperfeito do povo e se agrada dele por que ele dignifica esse louvor com a sua obra redentora. Esse \u00e9 talvez seja esse um dos aspectos mais dif\u00edceis de aceitar. Freq\u00fcentes vezes o canto dessa multid\u00e3o tem sido desqualificado e taxado de leviano e interesseiro pelo fato de logo adiante essa mesma multid\u00e3o gritar: Crucifica-o! Pobres de n\u00f3s se pensamos dessa maneira. O que diremos do nosso pr\u00f3prio canto? Em que ele poderia ser melhor, menos culpado e menos culp\u00e1vel do que o canto daquela multid\u00e3o. N\u00e3o somos, na verdade, todo mendigos da gra\u00e7a, como uma vez Lutero expressou? N\u00e3o somos todos sempre os mesmos que \u201cdesejando fazer o bem, acabam fazendo o mal, como expressa o ap\u00f3stolo Paulo? O diferencial n\u00e3o est\u00e1 na dignidade do canto, nem de quem canta. O diferencial est\u00e1 naquele a quem rendemos louvores enquanto procuramos salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Buscar o sacramento \u00e9 n\u00e3o perder essa perspectiva. Nele Cristo renova a sua presen\u00e7a junto de n\u00f3s enquanto peregrinamos para a Jerusal\u00e9m celeste, consolados pela palavra da cruz. Somos uma multid\u00e3o marchando ao lado daqueles que conosco lavam as suas consci\u00eancias no sangue do cordeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 a peregrina\u00e7\u00e3o dos desiludidos desse mundo. Perderam a f\u00e9 nas promessas que produziram pobreza, mis\u00e9ria, opress\u00e3o dos povos, agress\u00e3o, guerra e solid\u00e3o. \u00c9 a peregrina\u00e7\u00e3o daqueles que uniram suas vozes aos gritos de tantos que louvaram o ouro, o mamon, as sedas e os marfins. Daqueles que cantaram louvores aos ex\u00e9rcitos e \u00e0s armas. E que chegaram ao fim daquelas marchas com bandeiras de personagens criados para a ilus\u00e3o que esconde inten\u00e7\u00f5es de enganos e mentiras.<\/p>\n<p>Mas que finalmente ao cantar para aquele Jesus, viram todas as ilus\u00f5es expostas na cruz e na vergonha. E dessa cruz vir o olhar de uma vida nova que n\u00e3o \u00e9 mais desse mundo, feita de compaix\u00e3o, perd\u00e3o e solidariedade com o pecado e a morte que se lhe agrega.<\/p>\n<p>\u00c9 a peregrina\u00e7\u00e3o daqueles que lavam as suas vestes no sangue desse que est\u00e1 na cruz. \u00c9 a peregrina\u00e7\u00e3o e o canto que Jo\u00e3o v\u00ea e ouve aproximando-se do trono daquele que morreu e ressuscitou.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Paulo P. Weirich<br \/>\n<a href=\"mailto:weirich@ulbranet.com.br\">weirich@ulbranet.com.br<\/a><br \/>\nUniversidade Luterana do Brasil\/Semin\u00e1rio Conc\u00f3rdia<br \/>\nS\u00e3o Leopoldo, RS<br \/>\nBrasil<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1\u00b0 Domingo de Advento | 28 de Novembro de 2004 | Mateus 21:1-11 | Paulo P. Weirich | Hosana ao Filho de Davi! 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