{"id":11432,"date":"2021-02-07T19:48:54","date_gmt":"2021-02-07T19:48:54","guid":{"rendered":"https:\/\/theologie.whp.uzh.ch\/apps\/gpi\/?p=11432"},"modified":"2023-03-06T22:56:01","modified_gmt":"2023-03-06T21:56:01","slug":"joao-8-31-36-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.theologie.uzh.ch\/apps\/gpi\/joao-8-31-36-2\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o 8, 31-36"},"content":{"rendered":"<h3 align=\"left\"><strong>Pr\u00e9dica para o Dia da Reforma, 31 de Outubro de 2006 <\/strong><br \/>\n<strong>Texto: Jo\u00e3o 8, 31-36, Gottfried Brakemeier<\/strong><\/h3>\n<hr \/>\n<div align=\"left\">Prezada comunidade!<\/div>\n<div align=\"left\">\n<p>Hoje, h\u00e1 exatamente quatrocentos oitenta e nove anos, Martim Lutero pregou suas afamadas noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, na Alemanha. Protestava contra a venda de indulg\u00eancias em seu pa\u00eds e a explora\u00e7\u00e3o religiosa do povo. Desencadeou assim um dos maiores movimentos reformadores em todos os tempos. Como Igreja de tradi\u00e7\u00e3o luterana nos sabemos particularmente devedores dessa hist\u00f3ria. E no entanto, a comemora\u00e7\u00e3o de hoje interessa a toda a cristandade. \u00c9 bem verdade que a Reforma resultou na divis\u00e3o da Igreja. Provocou rivalidade e hostilidade entre crist\u00e3os, prejudicando-lhes a credibilidade, infelizmente. As autoridades da \u00e9poca se mostraram incapazes de evitar a cis\u00e3o. Em vez de ouvir o reformador, o perseguiram. N\u00e3o era necess\u00e1rio que assim acontecesse. Ent\u00e3o, vamos mostrar que hoje sabemos fazer melhor. O Dia da Reforma lembra o compromisso ecum\u00eanico. Vamos refazer o que quebrou e unir novamente nosso testemunho e servi\u00e7o. O Dia da Reforma deveria ser o Dia do Ecumenismo.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m sob outro aspecto, este dia se reveste de significado abrangente. \u00c9 disto que fala o texto a ser ouvido nesta oportunidade. Trata-se de um trecho do oitavo cap\u00edtulo do evangelho de Jo\u00e3o, os V 31 a 36:<\/p>\n<p>\u201cDisse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se v\u00f3s permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus disc\u00edpulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1. Responderam-lhe: Somos descendentes de Abra\u00e3o e jamais fomos escravos de algu\u00e9m; como dizes tu: Sereis livres? Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado \u00e9 escravo do pecado. O escravo n\u00e3o fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.\u201d<\/p>\n<p>Pessoa crist\u00e3 \u00e9 aquela que permanece nas palavras de Jesus. Somente quem acolhe os ensinamentos do mestre \u00e9 verdadeiramente disc\u00edpulo. Assim diz o texto. Portanto, \u00e9 a fidelidade ao evangelho que faz a Igreja ser Igreja. Ela pode trair seu Senhor, afastar-se dele, como por demais vezes o fez em sua hist\u00f3ria, lamentavelmente. Mas ent\u00e3o deixa de ser Igreja crist\u00e3. Para recuperar a identidade deve corrigir o percurso, converter-se. \u00c9 comum falar hoje na necessidade de \u201cretornar \u00e0s ra\u00edzes\u201d para conhecer-se a si mesmo e saber por onde orientar-se. Pois foi exatamente este o prop\u00f3sito da Reforma do s\u00e9culo 16. Quis que a Igreja voltasse a ser evang\u00e9lica. Para tanto, abusos teriam que ser abolidos e o povo deveria ter acesso direto \u00e0s fontes do evangelho. Foi forte o clamor que exigia o retorno da Igreja \u00e0s suas origens.<\/p>\n<p>Reformas costumam ser antip\u00e1ticas, antigamente e hoje. Significam mudan\u00e7a e provocam a resist\u00eancia de grupos que temem perder privil\u00e9gios. Maci\u00e7os interesses bloqueiam as iniciativas e produzem um congestionamento de projetos pendentes com s\u00e9rios preju\u00edzos para a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma realidade por demais conhecida no Brasil. Bem aventurada a na\u00e7\u00e3o que consegue implantar as devidas reformas a tempo e dessa maneira assegurar o bem comum, seja a reforma tribut\u00e1ria, previdenci\u00e1ria, seja a agr\u00e1ria ou outra. O Dia da Reforma certamente celebra um evento religioso, n\u00e3o pol\u00edtico. \u00c9 bom n\u00e3o confundir. Mesmo assim n\u00e3o deixa de lembrar a necessidade das reformas na sociedade. A \u201cclasse pol\u00edtica\u201d, que cumpra com seu dever e aprenda com o exemplo dado na Europa h\u00e1 quase quinhentos anos atr\u00e1s. Aquela Reforma protagonizada por Martim Lutero era urgente. A despeito dos conflitos que produziu, entre eles n\u00e3o poucos sangrentos, ela mudou o curso da Igreja para o melhor. A proclama\u00e7\u00e3o do evangelho em vers\u00e3o protestante redundou em transforma\u00e7\u00f5es sociais, as quais ningu\u00e9m de bom ju\u00edzo vai querer reverter. Deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do povo simples, por exemplo, oportunizando-lhe a ascens\u00e3o social. Ora, de muit\u00edssimas maneiras o mundo moderno \u00e9 devedor do esp\u00edrito da Reforma.<\/p>\n<p>Voltar \u00e0s ra\u00edzes, isto de modo algum significa restaurar as condi\u00e7\u00f5es de outrora ou de cultivar coisas antigas. N\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de conservadorismo e entusiasmo com \u201cantiguidades\u201d. Pelo contr\u00e1rio, reforma quer a mudan\u00e7a, a adequa\u00e7\u00e3o a novas circunst\u00e2ncias, quer a renova\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o pela simples mania de mudar. A boa reforma busca substituir o que j\u00e1 n\u00e3o mais serve por algo melhor. Para tanto necessita de proposta, a exemplo da justi\u00e7a social quando se trata de projeto pol\u00edtico. Dever\u00e1 ser concretizado nas condi\u00e7\u00f5es da atualidade. A proposta da Igreja \u00e9 o evangelho, a palavra que tem em Jesus Cristo sua origem e sua raiz. Esta palavra \u00e9 vida e verdade. Os disc\u00edpulos, convidados por Jesus a permanecerem no que lhes falou, recebem a promessa de conhecer a verdade. E a verdade os libertar\u00e1.<\/p>\n<p>Verdade, uma palavra fant\u00e1stica, quase demais. Desde aquela c\u00e9lebre pergunta de Pilatos est\u00e1 onerada com suspeitas. Verdade, isto realmente existe? Se existe, existe antes no plural, em forma de verdades. Pois cada qual t\u00eam o direito \u00e0 sua pr\u00f3pria verdade, n\u00e3o \u00e9 assim? Parece ser esta a lei da sociedade multicultural que sanciona o pluralismo e j\u00e1 n\u00e3o mais consegue formular normatividade. Basta olhar nossas telenovelas. Ser\u00e1 tudo permitido? A Reforma do s\u00e9culo 16 queria trazer \u00e0 luz a verdade, a verdade crist\u00e3, a verdade de Deus. E esta pode ser apenas uma. Como e em que sentido? Se f\u00f4ssemos perguntar Martim Lutero, ele teria uma resposta pronta, inequ\u00edvoca, terminante. Diria ele: Verdade \u00e9 que Deus \u00e9 misericordioso. \u00c9 esta a verdade fundamental. Foi a sua descoberta reformat\u00f3ria, feita na B\u00edblia, descoberta esta que, como confessou, o transferiu ao para\u00edso. Em vez de condenar, em vez de se vingar no pecador, em vez de lan\u00e7\u00e1-lo no inferno, Deus lhe perdoa as d\u00edvidas, justificando-o por gra\u00e7a somente e acolhendo-o como um pai acolhe seu filho e sua filha. Deus \u00e9 amor, assim o lemos na primeira carta de Jo\u00e3o. Esta \u00e9 a verdade. E por ser assim, o amor tamb\u00e9m \u00e9 o supremo mandamento.<\/p>\n<p>Como consigo um Deus misericordioso? Essa pergunta de Lutero n\u00e3o nasceu de uma consci\u00eancia doentiamente angustiada, n\u00e3o. \u00c9 esta a pergunta decisiva da humanidade. Poder-se-ia reagir, dizendo ser mais importante perguntar como conseguir uma sociedade misericordiosa, um mundo mais humano. E com efeito, \u00e9 forte o anseio por paz, justi\u00e7a, por um futuro sustent\u00e1vel em nossos dias. As pessoas sofrem sob a brutalidade do dia-a-dia, sob a viol\u00eancia, o desemprego, o apartheid social. A pergunta por um Deus misericordioso parece ser secund\u00e1ria. Mas n\u00e3o \u00e9. Pois uma coisa n\u00e3o se consegue sem a outra. Sem um Deus misericordioso, um mundo humano \u00e9 ilus\u00e3o. Onde \u00e9 que o ate\u00edsmo poderia aprender miseric\u00f3rdia? Inversamente, tamb\u00e9m fervor religioso n\u00e3o \u00e9 nenhuma garantia de bondade. Muito pelo contr\u00e1rio. Todo fundamentalismo \u00e9 violento. Crimes hediondos s\u00e3o cometidos em nome de Deus. Que horror! Por isto n\u00e3o \u00e9 indiferente, qual o Deus no qual n\u00f3s cremos. Somente um Deus misericordioso vai trazer luz \u00e0s nossas trevas. Um Deus que legitima o \u00f3dio, que o provoca e o estimula, um tal deus n\u00e3o \u00e9 apenas sup\u00e9rfluo, ele \u00e9 perigoso.<\/p>\n<p>O Deus de Jesus Cristo tem cora\u00e7\u00e3o. Tem compaix\u00e3o. Liberta de pecado, liberta para a pr\u00e1tica do amor. Os interlocutores de Jesus se admiram que ele lhes promete a liberdade. Acham que como membros do povo de Deus, filhos de Abra\u00e3o, sejam livres por natureza, mesmo que tivessem que suportar dom\u00ednio estrangeiro durante s\u00e9culos. Est\u00e3o enganados. Pois livre \u00e9 somente a pessoa que experimentou miseric\u00f3rdia da parte de Deus e aprendeu a ser grata. Livre \u00e9 quem se inspira nessa miseric\u00f3rdia e a traduz em amor ao pr\u00f3ximo. Tais pessoas ir\u00e3o rebelar-se contra o \u201cpecado\u201d neste mundo, contra a corrup\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o. Elas ter\u00e3o a coragem de protestar contra a injusti\u00e7a e a transformar o combate ao terror no combate ao \u00f3dio. Somente o amor \u00e9 capaz de vencer o \u00f3dio. Livre \u00e9 quem sabe desistir da vingan\u00e7a e subordinar seus interesses ego\u00edstas ao bem comum. A verdade nos libertar\u00e1 para o culto a Deus e o servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>A Reforma tem sido um gigantesco movimento libertador, movido pela certeza de a salva\u00e7\u00e3o ter sua fonte no amor de Deus e em nada mais. Libertou as pessoas de depend\u00eancias eclesi\u00e1sticas e pol\u00edticas e lembrou a cristandade de sua origem. A Reforma teve o seu tempo. O dia comemorativo pretende manter vivos os impulsos de que se nutriu. Sob tal perspectiva o 31 de outubro quer encorajar para uma nova arrancada, n\u00e3o s\u00f3 de luteranos e reformados, como da Igreja de Deus em sua integralidade, espalhada por todo o mundo. Voltar \u00e0s ra\u00edzes e partir para um novo ataque \u00e0 realidade do mal, \u00e9 isto com o que a Reforma compromete. O dia em que a comemoramos se reveste, por isto, da mais alta relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"left\">Am\u00e9m<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>P. Professor Dr. Gottfried Brakemeier<br \/>\nNova Petr\u00f3polis, RS, Brasilien<br \/>\n<a href=\"mailto:gbrakemeier@gmx.net\">gbrakemeier@gmx.net <\/a> <\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00e9dica para o Dia da Reforma, 31 de Outubro de 2006 Texto: Jo\u00e3o 8, 31-36, Gottfried Brakemeier Prezada comunidade! Hoje, h\u00e1 exatamente quatrocentos oitenta e nove anos, Martim Lutero pregou suas afamadas noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, na Alemanha. 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