{"id":18022,"date":"2023-04-03T09:02:18","date_gmt":"2023-04-03T07:02:18","guid":{"rendered":"https:\/\/theologie.whp.uzh.ch\/apps\/gpi\/?p=18022"},"modified":"2023-04-06T09:05:26","modified_gmt":"2023-04-06T07:05:26","slug":"mateus-27-32-50","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.theologie.uzh.ch\/apps\/gpi\/mateus-27-32-50\/","title":{"rendered":"Mateus 27. 32-50"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"font-weight: 400;\">PR\u00c9DICA PARA SEXTA-FEIRA | SANTA 7 DE ABRIL DE 2023 | Mateus 27. 32-50 | Felipe Gustavo Koch Butelli |<\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Que a gra\u00e7a de Jesus, Deus encarnado e crucificado, o amor de Deus e a comunh\u00e3o do Esp\u00edrito de Cristo estejam com voc\u00eas. Am\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Caras irm\u00e3s e caros irm\u00e3os em Cristo,<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A sexta-feira da paix\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia ocasi\u00e3o para refletirmos com profundidade sobre o sentido da encarna\u00e7\u00e3o e morte de Deus em Jesus Cristo. E provocativamente, quero lev\u00e1-las e lev\u00e1-los a refletir para al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o de sacrif\u00edcio vic\u00e1rio, ou seja, para al\u00e9m da confort\u00e1vel compreens\u00e3o de que Jesus morreu por vontade de Deus, para que nossos pecados fossem perdoados. Porque esta no\u00e7\u00e3o \u00e9 muito confort\u00e1vel para n\u00f3s e n\u00e3o nos permite compreender com profundidade o que foi a morte de Jesus na cruz. \u00c9 f\u00e1cil pensar que tudo j\u00e1 estava previsto por Deus. \u00c9 f\u00e1cil pensar que Jesus sabia que esta era sua miss\u00e3o. \u00c9 mais tranquilo para n\u00f3s colocarmos a responsabilidade da morte de Jesus na cruz no plano maravilhoso de Deus para nos salvar. Na verdade, n\u00f3s n\u00e3o queremos enfrentar o significado da cruz. Na verdade, se pud\u00e9ssemos, n\u00f3s pular\u00edamos esta cena, como se us\u00e1ssemos um controle remoto em um filme, porque ela \u00e9 muito cruel, sofrida e desagrad\u00e1vel. Preferimos saltar logo para a parte da ressurrei\u00e7\u00e3o e isto \u00e9 verdadeiramente perigoso. Perigoso porque nos desincumbimos de uma autocr\u00edtica, nos desimplicamos de entender que, talvez, a morte de Jesus n\u00e3o foi consequ\u00eancia da vontade de Deus, mas resultado daquilo que Jesus fez e pregou em sua vida para uma humanidade vil e incapaz de viver a proposta de amor que Jesus trouxe ao mundo. A pergunta que nos guia hoje \u00e9: por que, afinal, Jesus morreu?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A morte na cruz est\u00e1 intimamente ligada ao desejo de Deus expresso na sua pr\u00f3pria encarna\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, pessoas crist\u00e3s, cremos em um Deus que abre m\u00e3o de ser Deus e deixa-se humanizar e morrer a morte cruel por amor, at\u00e9 o fim. Por mais que muitas igrejas prefiram pregar um Deus da gl\u00f3ria, um rei em um trono celestial, um Esp\u00edrito desencarnado na cruz, Jesus representa o maior paradoxo da divindade. Apresenta um Deus que abre m\u00e3o da transcend\u00eancia. Abre m\u00e3o do seu lugar externo a este mundo, abre m\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o et\u00e9rea de um Deus distante, para se humanizar na fragilidade, na pobreza, na condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de uma fam\u00edlia pobre de Nazar\u00e9, que vive sob um poder secular e imperial tirano e opressor. O paradoxo inicial \u00e9 este. Deus abre m\u00e3o de sua divindade. Se humaniza a ponto de ser incapaz de \u201cdescer da cruz\u201d. Um Deus que se sente abandonado por si pr\u00f3prio e mergulha no v\u00e1cuo da sua pr\u00f3pria inexist\u00eancia. \u201cEli, Eli, Lama Sabactani\u201d, meu Deus, por que me abandonaste? No seu abandono, no v\u00e1cuo da sua pr\u00f3pria aus\u00eancia, Deus morre. Jesus morre e resta-nos apenas o sopro do seu Esp\u00edrito, entregue ao mundo na \u00faltima expira\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo gemido do corpo torturado, humilhado e vilipendiado de Cristo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isso acontece em G\u00f3lgota, o lugar da caveira. Lugar destinado aos ossos, ao supl\u00edcio daquelas pessoas que desafiaram o poder de Roma. A crucifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o era puni\u00e7\u00e3o para qualquer infrator, para qualquer bandido. Cruz era a puni\u00e7\u00e3o para escravos ou insurgentes pol\u00edticos. Aqui, novamente, as tradu\u00e7\u00f5es nos enganam, pois o texto nos diz que ao lado de Jesus havia dois ladr\u00f5es. Na verdade, a palavra grega \u201c<em>lestes<\/em>\u201d referia-se a terroristas armados que visavam derrubar o imp\u00e9rio Romano. A cruz \u00e9 uma puni\u00e7\u00e3o exemplar, que demonstra o poder do imp\u00e9rio para todas as pessoas que pensavam ser poss\u00edvel subverter a ordem e fazer uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra Roma.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O texto nos diz que Jesus foi despido e que soldados dividiram suas vestes entre si. Portanto, Jesus estava nu na cruz. Nossas representa\u00e7\u00f5es de Jesus na cruz geralmente colocam um pano amarrado ao seu corpo, porque n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos ver a sua nudez. A nudez tinha uma finalidade: a humilha\u00e7\u00e3o moral e a vergonha, para uma cultura muito baseada na honra pessoal, como aquela judaica de Jesus. As zombarias n\u00e3o cessaram por a\u00ed. Os soldados inscreveram em uma placa de madeira a frase \u201cRei dos Judeus\u201d, como uma forma de ridicularizar o que julgavam ser seu intento. Afinal de contas, um verdadeiro rei senta em um trono, mas jamais seria pregado na cruz. Esta \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o humilhante para algu\u00e9m que, na compreens\u00e3o de Roma, ousa confrontar o imp\u00e9rio. Este \u00e9 o tratamento dado a um autoproclamado Rei.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Jesus, apesar de em sua atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica ter sido um pacifista, apesar de ter sempre sugerido uma forma de resist\u00eancia n\u00e3o-violenta, pelo conte\u00fado de sua mensagem, por anunciar um reino de amor e justi\u00e7a e por ter reunido em torno de si multid\u00f5es de pessoas pobres e marginalizadas, acabou sendo considerado verdadeira amea\u00e7a ao Imp\u00e9rio Romano. Este \u00e9 o verdadeiro motivo da crucifica\u00e7\u00e3o: a proposta de Reino de Deus \u00e9 absolutamente amea\u00e7adora aos poderes deste mundo, representados na ocasi\u00e3o pelo Imp\u00e9rio Romano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Este crucificado, exposto \u00e0 vergonha e ao mart\u00edrio na cruz n\u00e3o \u00e9 apenas contemplado pelos soldados. O texto nos relata que as pessoas transeuntes viam aquele Jesus, que em outras ocasi\u00f5es haviam ouvido e acompanhado, e zombavam dele. Do mesmo modo, autoridades religiosas, sacerdotes e escribas que passavam pelo local faziam chacota com Jesus, a qual conheciam muito bem, afinal de contas, este mesmo Jesus ensinava publicamente nas sinagogas e poucas horas antes disso havia sido julgado pelo sin\u00e9drio. Perguntavam jocosamente: \u201cN\u00e3o pode salvar a si mesmo? N\u00e3o \u00e9 o filho de Deus? Se descer da cruz, da\u00ed sim poderemos crer nele\u201d. Por fim, nem os condenados que estavam ao seu lado pouparam-no de humilha\u00e7\u00e3o. Transeuntes, religiosos, bandidos e soldados. Todas as pessoas \u2013 o que poderia talvez representar a totalidade da humanidade \u2013 fazia o mesmo questionamento: \u201cSalvava os outros mas n\u00e3o pode salvar a si mesmo\u201d. Sabidamente, Jesus n\u00e3o colocava Deus \u00e0 prova. E a humanidade ali representada n\u00e3o podia entender como algu\u00e9m salva os outros, mas n\u00e3o salva a si mesmo. Uma pergunta bem compreens\u00edvel para n\u00f3s. Afinal, se pud\u00e9ssemos, sempre priorizar\u00edamos a n\u00f3s mesmos, a n\u00f3s mesmas. Mas esta nunca foi a l\u00f3gica de Jesus. Jesus veio para servir, e n\u00e3o para ser servido, veio para libertar, n\u00e3o precisava ser liberto. Veio para curar e perdoar, n\u00e3o necessitava reivindicar para si a cura ou o perd\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, veio para dar a vida, para que os nossos pecados fossem perdoados. Para proporcionar que n\u00f3s nos tornemos amigos e amigas de Deus. Nem naquele tempo, nem hoje temos plenas condi\u00e7\u00f5es de compreender este gesto de Deus. \u00c9 contr\u00e1rio a nossas regras de vida, \u00e0 forma como vivemos a humanidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Assim \u00e9 que Deus morre. Incompreendido por n\u00f3s. Julgado como uma fraude, como um fraco, um derrotado, humilhado e s\u00f3, abandonado pelas pessoas que o amavam, abandonado por Deus. \u00a0Em sua morte clama e lamenta toda cria\u00e7\u00e3o de Deus. O texto nos diz que o dia pleno tornou-se escuro, por horas. A escurid\u00e3o representa a vit\u00f3ria das trevas, uma recorda\u00e7\u00e3o do caos primordial que antecedeu toda cria\u00e7\u00e3o, um protesto da vida contra a opress\u00e3o, a injusti\u00e7a humana e contra a tirania da humanidade. Uma antecipa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio julgamento. A morte de Deus \u00e9 um evento c\u00f3smico. A tristeza profunda toma conta do universo, fruto da perversidade humana. Resultado de uma ideologia de morte que infectou a humanidade. E que continua infectando e prevalecendo diante da morte injusta de cada pessoa. Os vers\u00edculos que seguem ao nosso texto revelam os tremores de terra, as pedras que se quebram, o romper-se da cortina do Templo que separava o mundo sagrado do mundo profano. Em um mundo no qual Deus morre, sujeito aos poderes diab\u00f3licos da humanidade, n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o onde o sagrado possa residir.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Como pregar o evangelho num dia como esse? Como louvar alegremente diante da preval\u00eancia do poder da morte, da tirania da humanidade, que rejeita e condena violentamente o projeto de Deus para o mundo? Como deixar a dor da cruz pra tr\u00e1s e pular a cena, saltar a hist\u00f3ria direto para o domingo de P\u00e1scoa? \u00c9 preciso viver a sexta-feira. \u00c9 preciso nos darmos conta de que n\u00f3s n\u00e3o somos em nada diferentes daqueles soldados romanos. N\u00f3s somos os transeuntes, os sacerdotes e as lideran\u00e7as religiosas, que zombam e humilham o filho de Deus. Que, na primeira oportunidade questionamos: \u201ccomo pode salvar os outros e n\u00e3o salvar a si mesmo?\u201d Talvez a \u00fanica boa nova seja a que Jesus entrega seu Esp\u00edrito. Abre m\u00e3o de si mesmo. Entrega-se, sem revolta ao mart\u00edrio e \u00e0 morte, confiante de que seu Esp\u00edrito ser\u00e1 a heran\u00e7a de vida que nos ser\u00e1 destinada. Hoje, gra\u00e7as a Deus sabemos disso. Sabemos que seu Esp\u00edrito ser\u00e1 capaz de transformar a morte em vida. Seu Esp\u00edrito ser\u00e1 a nossa esperan\u00e7a de que o destino da humanidade n\u00e3o se limita \u00e0 maldade, ao sadismo da humanidade, \u00e0 tirania do poder. O Esp\u00edrito de Cristo, expirado no mundo no \u00faltimo gemido de Jesus, \u00e9 o Evangelho de hoje. Permane\u00e7amos na noite escura, na vig\u00edlia, no mundo dessacralizado, \u00e0 espera pela vit\u00f3ria que somente o Esp\u00edrito da vida poder\u00e1 nos conceder.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">L\u00e2mpada para os meus p\u00e9s \u00e9 a tua Palavra, Senhor, e luz para o meu caminho. Am\u00e9m.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>P. Dr. Felipe Gustavo Koch Buttelli<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong><a href=\"mailto:felipebuttelli@yahoo.com.br\">felipebuttelli@yahoo.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Goi\u00e2nia \u2013 Goi\u00e1s (Brasilien)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PR\u00c9DICA PARA SEXTA-FEIRA | SANTA 7 DE ABRIL DE 2023 | Mateus 27. 32-50 | Felipe Gustavo Koch Butelli | Que a gra\u00e7a de Jesus, Deus encarnado e crucificado, o amor de Deus e a comunh\u00e3o do Esp\u00edrito de Cristo estejam com voc\u00eas. Am\u00e9m. 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