{"id":18791,"date":"2023-09-05T21:48:10","date_gmt":"2023-09-05T19:48:10","guid":{"rendered":"https:\/\/theologie.whp.uzh.ch\/apps\/gpi\/?p=18791"},"modified":"2023-09-05T21:48:10","modified_gmt":"2023-09-05T19:48:10","slug":"mateus-18-15-20-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.theologie.uzh.ch\/apps\/gpi\/mateus-18-15-20-3\/","title":{"rendered":"Mateus 18.15-20"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"font-weight: 400;\">PR\u00c9DICA PARA O 14. DOMINGO AP\u00d3S PENTECOSTES | 10 de setembro de 2023 | Mateus 18.15-20 | St\u00e9fani Niew\u00f6hner e Fernando Jos\u00e9 Matias |<\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Evangelho de hoje n\u00e3o \u00e9 apenas sobre perd\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o sobre como manter da comunidade\/Igreja a partir da l\u00f3gica da justi\u00e7a e do amor, em meio aos seus problemas e conflitos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O texto n\u00e3o nega haver problemas na comunidade do evangelista; pelo contr\u00e1rio, oferece um passo a passo para lidar com tais problemas\/conflitos, visando manter a unidade, mas n\u00e3o qualquer unidade e, sim, uma unidade justa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por que falamos de unidade justa?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Olhando para as comunidades pelo mundo, podemos perceber tipos diferentes de se tentar manter a unidade. H\u00e1 um modelo, por exemplo, que tenta manter a unidade baseada no medo, no silenciamento, no cancelamento, na impossibilidade de di\u00e1logo, na impossibilidade de exorta\u00e7\u00e3o, de den\u00fancia e de an\u00fancio, enfim, na ideia de &#8222;varrer a sujeira pra baixo do tapete&#8220; e deixar as coisas quietas como est\u00e3o. Querer manter uma unidade a partir desses fundamentos \u00e9 algo corriqueiro, no entanto, fr\u00e1gil, perigoso, danoso, injusto e antievang\u00e9lico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas h\u00e1 o modelo b\u00edblico, evang\u00e9lico e crist\u00e3o, que \u00e9 aquele que busca construir a unidade baseada na l\u00f3gica do amor e da justi\u00e7a. Ele \u00e9 o oposto do citado anteriormente. A pergunta \u00e9: Como queremos edificar e manter a unidade em nossa comunidade? \u00c9 sobre isso que o evangelho de Mateus nos convida a\u00a0refletir.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O contexto do evangelho e comunidade de Mateus \u00e9 importante para compreendermos o tom do nosso texto. Na per\u00edcope anterior Jesus fala sobre a ovelha perdida, que, com esfor\u00e7o \u00e9 procurada, encontrada e trazida de volta ao conv\u00edvio das demais. O v.14 diz: <em>\u201cAssim, pois, n\u00e3o \u00e9 da vontade de vosso Pai celeste que pere\u00e7a um s\u00f3 destes pequeninos\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nossa per\u00edcope come\u00e7a com uma instru\u00e7\u00e3o de Jesus: <em>\u201cSe teu irm\u00e3o pecar [contra ti], vai argui-lo (do grego <\/em><em>\u1f14\u03bb\u03b5\u03b3\u03be\u03bf\u03bd<\/em>, que significa <em>corrigir) entre ti e ele s\u00f3. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irm\u00e3o\u201d.<\/em> Observe, embora exista a chance de perd\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s corre\u00e7\u00e3o do pecador que te ouviu; tamb\u00e9m existe chance de se perder um irm\u00e3o, uma irm\u00e3 caso a pessoa n\u00e3o aceite a corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Destacamos isso porque muitas vezes esse texto \u00e9 trabalhado partindo do pressuposto que n\u00e3o existe pecado, pecadinho e pecad\u00e3o ou como se as consequ\u00eancias de alguns pecados n\u00e3o fossem mais graves e danosas que outros. Obviamente o texto n\u00e3o insiste no di\u00e1logo para qualquer tipo de situa\u00e7\u00e3o. Contudo, apesar de compreendermos que, independentemente do \u201ctamanho\u201d, todo o tipo de pecado nos afasta de Deus, do pr\u00f3ximo e de n\u00f3s mesmos, vale lembrar que existem diferentes tipos de pecado e danos por ele causados, alguns chegando na esfera criminal, por exemplo. Sendo assim, nem sempre \u00e9 poss\u00edvel a conversa e o di\u00e1logo, especialmente se for compreendido que a pessoa ferida deva falar sozinha com aquele que a feriu. Esse texto, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um apelo para evitar den\u00fancias a todo o custo, muito pelo contr\u00e1rio. Algu\u00e9m que sofre viol\u00eancia, preconceito, abuso, exclus\u00e3o, injusti\u00e7a&#8230; j\u00e1 arguiu e mesmo assim a situa\u00e7\u00e3o segue se repetindo, \u00e9 bem poss\u00edvel que essa pessoa n\u00e3o conseguir\u00e1 mais resolver apenas conversando com seu agressor, al\u00e9m de correr o risco de sofrer ainda mais com tal atitude. Nesses casos, precisamos chegar no n\u00edvel da den\u00fancia \u00e0s institui\u00e7\u00f5es competentes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que o texto quer orientar, \u00e9 que existem pecados onde o di\u00e1logo e corre\u00e7\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis. Na vida em comunidade se encontram pessoas de diferentes culturas, diferentes tradi\u00e7\u00f5es, diferentes opini\u00f5es. \u00c0s vezes, nessa conviv\u00eancia, uma pessoa fere a outra, at\u00e9 sem querer ou sem perceber. Outras vezes, um desentendimento acontece e, por ningu\u00e9m arguir e intervir do jeito e no momento certo, o conflito vira uma bola de neve. O di\u00e1logo pode ser a forma de lidar com esses casos. Assim, a pessoa que ofendeu tem a chance de reconhecer o erro, pedir perd\u00e3o e ser perdoada. Para esses casos, Jesus recomenda o di\u00e1logo particular em primeira inst\u00e2ncia: \u201cSe o teu irm\u00e3o pecar, vai argui-lo (corrigi-lo) entre ti e ele s\u00f3\u201d (v.15). Essa pr\u00e1tica de corre\u00e7\u00e3o fraterna j\u00e1 era conhecida do Antigo Testamento (Lv 19.17<a name=\"_ftnref3\"><\/a>) e buscava a admoesta\u00e7\u00e3o imediata, evitando que o conflito ganhasse grandes propor\u00e7\u00f5es e chegasse ao conhecimento de toda a comunidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Podemos nos perguntar com quem o vers\u00edculo est\u00e1 falando. Se a pessoa que deve procurar pecador \u00e9 a pr\u00f3pria pessoa ofendida ou algu\u00e9m outro que soube ou que foi testemunha do ocorrido. Na vers\u00e3o original, o texto grego traz a express\u00e3o <strong>\u03b5\u1f30\u03c2<\/strong>\u00a0<strong>\u03c3\u1f72<\/strong>\u00a0\u201ccontra ti\u201d, entre colchetes. Isso porque alguns manuscritos cont\u00e9m a express\u00e3o, outros n\u00e3o. Provavelmente, a express\u00e3o \u201ccontra ti\u201d se trata de um acr\u00e9scimo posterior dos copistas. Se lermos com a express\u00e3o, podemos deduzir que \u00e9 a pr\u00f3pria pessoa atingida ir ao encontro daquela que lhe ofendeu. Sem a express\u00e3o, podemos compreender como uma instru\u00e7\u00e3o de Jesus para uma pessoa que soube ou testemunhou o ocorrido procure o agressor, como uma esp\u00e9cie de mediador de conflitos na comunidade. De qualquer forma, quando lemos o texto nos dias de hoje, a injusti\u00e7a n\u00e3o deve \u201cser varrida pra baixo do tapete\u201d e \u00e9 sempre bom levar em conta o tipo de pecado cometido, para ent\u00e3o definir quem deve ser essa primeira pessoa a buscar a pessoa pecadora. De acordo com o texto, se essa primeira etapa fosse bem sucedida, o ofensor seria convencido de seus erros e conduzido ao arrependimento.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas Jesus tamb\u00e9m sabia que nem sempre essa atitude de falar em particular daria resultado. Ele ent\u00e3o recomenda uma segunda tentativa, dessa vez com duas ou tr\u00eas testemunhas. Se ainda assim, a pessoa n\u00e3o quiser ouvir, o terceiro passo \u00e9 avisar a Igreja. A comunidade como um todo, assume o papel de confrontar a pessoa pecadora com suas falhas a fim de lev\u00e1-la ao arrependimento e \u00e0 repara\u00e7\u00e3o de seus pecados. Se a pessoa n\u00e3o quiser ouvir a admoesta\u00e7\u00e3o da Igreja ela deve ser considerada como um gentio ou publicano, pessoas que, com sua insist\u00eancia no pecado, se autoexcluem da comunh\u00e3o e quebram a unidade baseada na justi\u00e7a e no amor. Ou seja, ver a pessoa como um gentio ou um publicano n\u00e3o significa conden\u00e1-la \u00e0 exclus\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea que a est\u00e1 excluindo, mas \u00e9 a pessoa que se exclui a si mesma, pois n\u00e3o consegue se enquadrar no modelo de unidade justa, proposta por Jesus. Al\u00e9m disso, vale lembrar que a possibilidade do arrependimento e da convers\u00e3o ainda existem, tendo em vista que o pr\u00f3prio Jesus incluiu gentios e publicanos em sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O vers\u00edculo 18 trata sobre o of\u00edcio das chaves, o poder que Cristo deu \u00e0 Igreja de perdoar os pecados dos pecadores que se arrependem e reter os pecados dos pecadores que n\u00e3o se arrependem: \u201cem verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra ter\u00e1 sido ligado nos c\u00e9us, e tudo o que desligardes na terra ter\u00e1 sido desligado nos c\u00e9us\u201d. Se o pecador ouve, confessa, se arrepende e busca mudar de atitude, o an\u00fancio do perd\u00e3o divino pode ser dado. Por\u00e9m, onde n\u00e3o houver a argui\u00e7\u00e3o, a confiss\u00e3o do pecado, o arrependimento e o desejo de repara\u00e7\u00e3o do mal cometido, n\u00e3o h\u00e1 an\u00fancio do perd\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O vers\u00edculo 19 refor\u00e7a essa ideia \u201cEm verdade tamb\u00e9m vos digo que, se dois dentre v\u00f3s, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-\u00e1 concedida por meu Pai, que est\u00e1 nos c\u00e9us.\u201d O que a comunidade decide em termos de assuntos disciplinares (desde que estejam de acordo com o Reino de Deus e a sua justi\u00e7a) \u00e9 vontade de Deus sendo realizada no testemunho da comunidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E Jesus conclui dizendo: \u201cPorque, onde estiverem dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, ali estou no meio deles\u201d (v.20). Nas decis\u00f5es da comunidade que busca o Reino de Deus e a sua justi\u00e7a em primeiro lugar, Jesus est\u00e1 no meio deles. Onde h\u00e1 tentativa de di\u00e1logo, Jesus est\u00e1 presente. N\u00e3o \u00e9 a comunidade que decide no lugar de Deus, mas, sim, a decis\u00e3o divina \u00e9 realizada e \u00e9 ecoada na voz da comunidade que, reunida em nome de Jesus, promove unidade justa. Jesus \u00e9 presen\u00e7a real na comunidade, em todos os momentos, mesmo nos momentos onde a disciplina fraterna precisa acontecer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Muitas vezes, esse texto \u00e9 trabalhado como se ele falasse da obrigatoriedade do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o. Frases como \u201csomos todos pecadores\u201d, \u201cn\u00e3o julgue\u201d, \u201cdevemos sempre perdoar\u201d&#8230; muitas vezes s\u00e3o usadas como justificativas para permitir que injusti\u00e7as continuem acontecendo no meio da comunidade e os conflitos sejam varridos pra baixo do tapete, assim uma unidade injusta e danosa vai se perpetuando. Por isso, ignorar o pecado n\u00e3o est\u00e1 no passo a passo ensinado por Jesus. Isso seria o mesmo que edificar uma comunidade baseada na injusti\u00e7a. Esse texto nos exige que usemos de Lei e de Evangelho, ao admoestar um irm\u00e3o, com amor e firmeza, dizendo-lhe: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 em pecado\u201d, \u201cisso precisa mudar\u201d. Jesus quer a edifica\u00e7\u00e3o da comunidade onde sua unidade \u00e9 baseada na justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o descartamos aqui a possibilidade de acontecer o perd\u00e3o e tamb\u00e9m a reconcilia\u00e7\u00e3o, esse \u00e9 o ideal pensado por Deus. Mas, em primeiro lugar, esse texto quer orientar a comunidade a ser edificar a partir de fundamento s\u00f3lido e justo, por isso fala de admoesta\u00e7\u00e3o, de reconhecimento da culpa e de transforma\u00e7\u00e3o. Se depois disso, o pecador confessar a sua culpa, pedir perd\u00e3o e buscar a repara\u00e7\u00e3o de seus erros, a\u00ed, sim, podemos falar de perd\u00e3o. N\u00e3o existe verdadeira chance de perd\u00e3o onde primeiro n\u00e3o houver justi\u00e7a. Sendo o perd\u00e3o poss\u00edvel, \u00e9 poss\u00edvel (ou n\u00e3o) a reconcilia\u00e7\u00e3o, sonhada por Deus.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Importante ainda destacar que n\u00e3o se pode confundir perd\u00e3o com reconcilia\u00e7\u00e3o. Perd\u00e3o pode acontecer ainda que as pessoas envolvidas n\u00e3o reestabele\u00e7am a rela\u00e7\u00e3o que tinham antes. Que bonito quando todos esses passos acontecem: admoesta\u00e7\u00e3o, reconhecimento, mudan\u00e7a de atitude, confiss\u00e3o de culpa e pedido de perd\u00e3o por parte do ofensor, perd\u00e3o por parte do ofendido, e reconcilia\u00e7\u00e3o. Mas at\u00e9 mesmo Jesus sabia que nem sempre esse seria o resultado de um di\u00e1logo fraterno. Mesmo assim, independente do resultado, Jesus vem nos dizer que jamais nos abandona e que est\u00e1 em nosso meio mesmo onde a justi\u00e7a e o amor de Deus foram amea\u00e7ados. \u00c9 ele que nos fortalece na luta!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Perd\u00e3o crist\u00e3o combate o mal e \u00e0s suas ra\u00edzes, n\u00e3o nos deixar silenciar e acomodar frente \u00e0s injusti\u00e7as (ele \u00e9 den\u00fancia e an\u00fancio), por isso luta e promove justi\u00e7a (nem sempre a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel), e transforma o ser e a realidade (e as rela\u00e7\u00f5es)\u00a0em\u00a0sua\u00a0volta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Que, com a presen\u00e7a de Jesus em nosso meio, possamos cumprir a sua vontade e edificar comunidades onde a unidade \u00e9 baseada no amor respons\u00e1vel e na justi\u00e7a de Deus. Am\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">&#8212;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pa. St\u00e9fani Niew\u00f6hner<\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\">Fernando Jos\u00e9 Matias<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o Louren\u00e7o do Sul \u2013 RS (Brasilien)<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"mailto:stefaniniewohner@gmail.com\">stefaniniewohner@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PR\u00c9DICA PARA O 14. 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