{"id":5840,"date":"2021-09-27T22:41:08","date_gmt":"2021-09-27T20:41:08","guid":{"rendered":"https:\/\/theologie.whp.uzh.ch\/apps\/gpi\/?p=5840"},"modified":"2021-09-27T22:41:08","modified_gmt":"2021-09-27T20:41:08","slug":"marcos-10-2-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.theologie.uzh.ch\/apps\/gpi\/marcos-10-2-12\/","title":{"rendered":"Marcos 10.2-12"},"content":{"rendered":"<h3>PR\u00c9DICA PARA O\u00a0 19\u00ba DOMINGO AP\u00d3S PENTECOSTES \u2013 3 de outubro de 2021 | Texto b\u00edblico: Marcos 10.2-12 | St\u00e9fani Niew\u00f6hner |<\/h3>\n<p>O texto de hoje \u00e9 mais um daqueles onde Jesus \u00e9 confrontado pelos fariseus com alguma quest\u00e3o complicada. Hoje, a pergunta \u00e9 sobre a legitimidade do div\u00f3rcio. Os fariseus perguntam: \u201c<em>\u00c9 l\u00edcito ao marido repudiar\/mandar embora sua mulher?<\/em>\u201d A quest\u00e3o \u00e9, na verdade, uma pegadinha. Exige muito mais do que um mero \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d como resposta.<\/p>\n<p>Jesus \u00e9 s\u00e1bio. Ele responde com outra pergunta: <em>\u201c\u2014 O que foi que Mois\u00e9s mandou<\/em>?\u201d. E eles respondem <em>\u201c\u2014 Mois\u00e9s permitiu ao homem dar \u00e0 sua esposa um documento de div\u00f3rcio e mand\u00e1-la embo<\/em>ra\u201d.<\/p>\n<p>Os fariseus respondem com base no texto de Deuteron\u00f4mio 24. Esse texto era conhecido dos fariseus e tamb\u00e9m de Jesus. Em Deuteron\u00f4mio, lemos ainda que o div\u00f3rcio acontecia por qualquer motivo. Bastava o homem achar algo \u201cindecente\u201d ou algo que n\u00e3o lhe agradasse na sua esposa, qualquer coisa. Na resposta dos fariseus, pode parecer que Mois\u00e9s incentivou o div\u00f3rcio. Mas essa ainda n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o completa da cena.<\/p>\n<p>No tempo de Mois\u00e9s, o div\u00f3rcio j\u00e1 era uma pr\u00e1tica comum. Mas, quando uma mulher era mandada embora pelo marido, ela n\u00e3o poderia casar-se novamente a n\u00e3o ser que fosse acusada de \u00a0adult\u00e9rio, pois nesse caso, seria condenada \u00e0 morte por apedrejamento. Ent\u00e3o, quando Mois\u00e9s fala do div\u00f3rcio, ele coloca como lei dar a \u201ccarta de div\u00f3rcio\u201d \u00e0 mulher, para que assim seu direito e sua dignidade fossem assegurados ap\u00f3s o div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>A lei de Mois\u00e9s ajuda a quest\u00e3o das mulheres, mas n\u00e3o resolve o problema mais profundo. E \u00e9 justamente esse problema que Jesus procura iluminar.<\/p>\n<p>Para entendermos melhor a situa\u00e7\u00e3o, precisamos entender um pouco como viviam homens e mulheres no tempo de Jesus.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, uma mulher n\u00e3o tinha muita autonomia. Uma mulher n\u00e3o poderia escolher se queria uma vida celibat\u00e1ria ou o casamento, por exemplo. Tamb\u00e9m n\u00e3o podia exigir o div\u00f3rcio. Eram os homens que tomavam essas decis\u00f5es. E, mesmo em caso de div\u00f3rcio ou viuvez, na maioria dos casos, ela tamb\u00e9m n\u00e3o podia escolher se queria casar-se novamente ou n\u00e3o. Era comum que nos contratos de casamento, fixados entre pai e marido, nem mesmo constasse o nome da mulher em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A sedentariza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento das cidades fizeram com que a mulher perdesse uma certa liberdade que tinha no ambiente rural e agr\u00e1rio. Nas cidades, o homem \u00e9 quem assume os instrumentos de poder social. A mulher fica restrita ao lar, na fun\u00e7\u00e3o de esposa e m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mulheres n\u00e3o eram contadas como pessoas, seja legalmente, socialmente ou religiosamente. Mulheres n\u00e3o tinham direito \u00e0 propriedade. O pai, marido ou filho eram donos da casa e da terra. Uma mulher divorciada, sem filhos, n\u00e3o tinha escolha: ou retorna \u00e0 casa do pai (se ainda o tem, e se ele a aceita de volta) ou se casa novamente, do contr\u00e1rio \u00a0est\u00e1 sujeita \u00e0 vida na prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A lei era r\u00edgida com as mulheres. Uma mulher n\u00e3o deveria sequer conversar com um homem que n\u00e3o fosse da fam\u00edlia; tal atitude era considerada sinal de adult\u00e9rio. Em diversos per\u00edodos da vida, a mulher deveria ficar reclusa em casa, por ser considerada impura, devido \u00e0 menstrua\u00e7\u00e3o, parto ou qualquer tipo de sangramento. Se o parto fosse de uma menina, o per\u00edodo de reclus\u00e3o era o dobro do tempo do que era exigido em caso do nascimento de um menino.<\/p>\n<p>Cabe dizer ainda, que mesmo em meio a essa realidade, ao longo da hist\u00f3ria de Israel vemos mulheres l\u00edderes, em \u00e2mbito religioso e pol\u00edtico, que agiram em benef\u00edcio da comunidade. A lei apresentava algumas brechas que permitiam que as mulheres testemunhassem publicamente e tivessem direito a posses. Com isso, percebemos a exist\u00eancia de grupos que buscavam outras maneiras de viver e se relacionar.<\/p>\n<p>Tendo esse cen\u00e1rio em mente, voltamos, agora, \u00e0 resposta mais profunda de Jesus. Ele diz: <em>\u201c\u2014 Mois\u00e9s escreveu esse mandamento para voc\u00eas por causa da dureza do cora\u00e7\u00e3o de voc\u00eas.\u201d <\/em>Aqui, dureza do cora\u00e7\u00e3o, no original grego, \u00e9 <em>sklerocardia<\/em>, literalmente<em>, \u201cesclerose do cora\u00e7\u00e3o\u201d, <\/em>ou seja, um cora\u00e7\u00e3o que desaprendeu a amar e passou a colocar a lei acima do amor e da compaix\u00e3o<em>. <\/em>E a\u00ed ele volta \u00e0s origens. Relembra da cria\u00e7\u00e3o em g\u00eanesis, quando Deus cria homem e mulher. Jesus cita Gn 2.24, dizendo: \u201cPor isso o homem deixa o seu pai e a sua m\u00e3e para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma s\u00f3 pessoa.\u201d. E, assim, conclui a conversa com os fariseus: <em>\u201cPortanto, que ningu\u00e9m separe o que Deus uniu\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Jesus e os disc\u00edpulos v\u00e3o para casa, e l\u00e1 o assunto continua. Jesus refor\u00e7a o que dissera aos fariseus, afirmando que comete adult\u00e9rio, tanto o homem que manda a esposa embora e se casa novamente, quanto uma mulher que manda o marido embora e se casa novamente.<\/p>\n<p>A resposta de Jesus \u00e9 radical e impens\u00e1vel para a \u00e9poca. Jesus coloca igualdade e justi\u00e7a como crit\u00e9rio. O que vale para homens, vale para as mulheres, e vice-versa. Ao tratar o assunto dessa maneira, Jesus tira o privil\u00e9gio que o homem tinha sobre a mulher.<\/p>\n<p>O assunto do div\u00f3rcio n\u00e3o era um assunto f\u00e1cil na \u00e9poca de Jesus. Tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9 hoje. Sabemos que muitas pessoas experimentam liberta\u00e7\u00e3o depois de um div\u00f3rcio em casos onde o casamento era abusivo, permeado pela viol\u00eancia ou desrespeito.<\/p>\n<p>Mas sabemos tamb\u00e9m que muitas pessoas se separam por qualquer motivo, sem antes conversar, orar, buscar ajuda e tentar ajeitar as coisas. Nesses casos, assim como fez Jesus, dever\u00edamos lembrar do come\u00e7o. Relembrar g\u00eanesis. Relembrar o come\u00e7o do namoro. Relembrar o dia do casamento. O dia em que o casal escolheu dizer o m\u00fatuo \u201csim\u201d. E a cada dia, <em>na tristeza ou alegria, na sa\u00fade ou na doen\u00e7a<\/em>, escolher novamente dizer aquele \u201csim\u201d, se isso ainda for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria certo dizer que uma rela\u00e7\u00e3o pode ser dissolvida facilmente, nem tampouco dizer que n\u00e3o pode ser dissolvida por circunst\u00e2ncia alguma. Cada situa\u00e7\u00e3o merece aten\u00e7\u00e3o especial, e cada caso ter\u00e1 que assumir as responsabilidades bem como as consequ\u00eancias imputadas a cada um dos envolvidos.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0s pessoas divorciadas? Como Jesus se colocava diante dessa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O movimento de Jesus n\u00e3o fazia acep\u00e7\u00e3o de pessoas. Acolhia homens, mulheres, crian\u00e7as, em igualdade, independentemente de sua posi\u00e7\u00e3o social ou familiar. Entre seus seguidores e seguidoras encontramos: pessoas pobres, marginalizadas, vi\u00favas, divorciadas ou sozinhas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o movimento de Jesus ressignificou o ambiente da casa. O ambiente principal de atua\u00e7\u00e3o das mulheres, agora \u00e9 mais que o lugar da fam\u00edlia, se torna um ambiente para viver e propagar os ensinamentos de Jesus, um local de bom conv\u00edvio entre iguais, de encontro para fortalecer a f\u00e9 e a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em tempos de distanciamento social, a casa voltou a ser lugar de culto e ora\u00e7\u00e3o. Foi nas casas, que nesse tempo, a maioria das pessoas viveu sua vida privada e p\u00fablica. Isso reduziu os la\u00e7os sociais ao n\u00facleo familiar. Em alguns casos, fam\u00edlias se fortaleceram. Em outros, conflitos existentes foram elevados ao extremo, evidenciando rela\u00e7\u00f5es onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o di\u00e1logo, o respeito e a igualdade.<\/p>\n<p>Para um casamento duradouro e feliz \u00e9 necess\u00e1rio que o compromisso do altar seja renovado e vivido diariamente. Que exista disposi\u00e7\u00e3o para ouvir, respeito, di\u00e1logo, afeto, doa\u00e7\u00e3o, perd\u00e3o, compreens\u00e3o, paci\u00eancia, confian\u00e7a, igualdade, cuidado m\u00fatuo, e n\u00e3o por \u00faltimo, amor.<\/p>\n<p>\u00c9 importante que levemos desse texto, n\u00e3o uma resposta conclusiva, como \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d, mas aquilo que Jesus queria iluminar: uma situa\u00e7\u00e3o de profundo sofrimento, viol\u00eancia, injusti\u00e7a e desigualdade de sua \u00e9poca, provocada pela dureza do cora\u00e7\u00e3o daqueles que conheciam a teoria de todas as leis; menos da lei do amor. Jesus nos mostra que as leis s\u00f3 passaram a existir por causa dos cora\u00e7\u00f5es endurecidos. Se o ser humano vivesse a lei do amor (amar a Deus e ao pr\u00f3ximo como a si mesmo) em suas rela\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o nenhuma lei precisaria existir e ao mesmo tempo todas j\u00e1 estariam cumpridas. Mas por causa da dureza do cora\u00e7\u00e3o, as leis foram criadas. Acontece que \u201cuma lei injusta n\u00e3o \u00e9 lei alguma\u201d (Agostinho). E foi essa injusti\u00e7a na lei que Jesus buscou iluminar.<\/p>\n<p>Independentemente de como uma pessoa vive sua vida, se namorando, casada, solteira, divorciada, vi\u00fava ou em um novo casamento, que em sua vida e em suas rela\u00e7\u00f5es, ela lute contra a dureza em seu cora\u00e7\u00e3o e busque cumprir, diariamente, a lei do amor, da igualdade, da dignidade, da valoriza\u00e7\u00e3o de toda a forma de vida. Que Deus nos ajude nessa tarefa. Am\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Candidata ao pastorado St\u00e9fani Niew\u00f6hner<\/p>\n<p>S\u00e3o Leopoldo \u2013 Rio Grande do Sul (Brasilien)<\/p>\n<p><a href=\"mailto:stefaniniewohner@gmail.com\">stefaniniewohner@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PR\u00c9DICA PARA O\u00a0 19\u00ba DOMINGO AP\u00d3S PENTECOSTES \u2013 3 de outubro de 2021 | Texto b\u00edblico: Marcos 10.2-12 | St\u00e9fani Niew\u00f6hner | O texto de hoje \u00e9 mais um daqueles onde Jesus \u00e9 confrontado pelos fariseus com alguma quest\u00e3o complicada. Hoje, a pergunta \u00e9 sobre a legitimidade do div\u00f3rcio. 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